Sabes? Hoje saí
Pela porta aberta fechada para mim.
É de pedra, a calçada quente
Onde brinca a criançada inocente
E vermelho, um cravo ao sol no jardim.
Andorinhas, ao vento voam pelo céu azul,
Vindas em bandos do sul
Agraciando a primavera,
A fragrância a alecrim e rosmaninho.
Com elegância de quem se esmera,
Sem delonga, sem espera,
Fazem, nos beirais, o ninho
Sob a sombra das telhas do telhado.
Os seus pios são um concerto afinado.
Ah como é belo o rubro intenso
Das papoulas ladeando o caminho,
O fresco pasto do prado imenso
Abeirando-se nas límpidas águas da ribeira
Que sacia o gado que s'apascenta à beira
E também a velha fonte.
Imponentes, além do monte
Vi os choupos de um choupal
À luz do dilúculo quase bruxuleante.
Dei um outro passo em frente
Sentindo a brisa morena na cara,
Ouvindo seus segredos, confidente,
Trazidos à luz do dia tão branca e clara.
Contava-me traquinices, como uma catraia
Que bailava por entre anciãos pinheiros
Balouçando-os num bailado ligeiro,
Arremessando fina areia da praia.
Disse olá ao vento e senti-me bem
Enquanto me afastava da porta atrás.
Então senti-me em paz.
Balouçava com a brisa,
Ameaçando fechar
Soltando chios as dobradiças
Mas as andorinhas
Voando como quem ao vento desliza,
Com plumagem catita, castiça
Fizeram-me delirar.
Esquecia-me do medo do agora,
De estar lá fora
Sem fugir para dentro.
Sorvi a calma gotejante do momento
Que me veio saciar.
As estrelas por trás do sol escondidas,
Via-as! Cada uma a cintilar
Como pérolas ao sol perdidas.
Mais um passo dei. Tranpus o portão
De ferro ao fundo do jardim,
Sentindo o calor da calçada quente
Onde brincava a criançada inocente.
Num canto dormia um cão
Num canteiro de jasmim.
Quase livre segui em frente,
Acompanhando os sorrisos da catraiada.
Finalmente cheguei à estrada.
Pela rua passava azafamado
Um mar de gente
Como formigas dum formigueiro
Num carreiro, em viva lida.
Vi um ínfimo grão da vida
E a sua glória.
Sabes? Foi a minha maior vitória.
quinta-feira, 27 de maio de 2010
sexta-feira, 21 de maio de 2010
Perdemos o autocarro
Perdemos o autocarro,
O último a passar.
Viemos a pé
E a assobiar.
A meio do caminho
Alguém disse num grito
Que andava no ar
Um cheiro esquisito.
O ar odorífero
Soprava da esquerda.
Cheirava a caruma,
A musgo e a merda.
Ficámos curiosos
Com a fragrância do ar.
Chegámos mais perto
Para apreciar.
Uma coisa insólita
Se estava a passar:
Um rapaz em cócoras
No pinhal a cagar.
O rapaz tão franzino
Excretava aos montões.
Saíam-lhe do cú
Grandes cagalhões.
Enquanto cagava,
E a acompanhar,
Largava favecas
Que o faziam saltar.
Veio uma rabanada
Mui forte de vento.
Desiquilibrou-se e caiu
Com o rabo no excremento.
Cagou a camisa,
As calças, as cuecas
E as bordas borradas
Pareciam panquecas.
Colou-se-lhe ao cú
Palha e areia.
O rapaz aflito
Viu a coisa feia.
No meio da aflição,
Com danças rabigas
Roçou o cú
Num molho de urtigas.
Era grande o queimor,
Também a comichão.
Esfregou o rego e as nádegas
Com os dedos da mão.
Picavam-lhe mosquitos
Em vários lados.
Coçou o corpo e a cara
Com os dedos borrados.
Vestiu-se e zarpou
Com ares pouco ridentes,
Cheio de pressa
E merda até aos dentes.
O último a passar.
Viemos a pé
E a assobiar.
A meio do caminho
Alguém disse num grito
Que andava no ar
Um cheiro esquisito.
O ar odorífero
Soprava da esquerda.
Cheirava a caruma,
A musgo e a merda.
Ficámos curiosos
Com a fragrância do ar.
Chegámos mais perto
Para apreciar.
Uma coisa insólita
Se estava a passar:
Um rapaz em cócoras
No pinhal a cagar.
O rapaz tão franzino
Excretava aos montões.
Saíam-lhe do cú
Grandes cagalhões.
Enquanto cagava,
E a acompanhar,
Largava favecas
Que o faziam saltar.
Veio uma rabanada
Mui forte de vento.
Desiquilibrou-se e caiu
Com o rabo no excremento.
Cagou a camisa,
As calças, as cuecas
E as bordas borradas
Pareciam panquecas.
Colou-se-lhe ao cú
Palha e areia.
O rapaz aflito
Viu a coisa feia.
No meio da aflição,
Com danças rabigas
Roçou o cú
Num molho de urtigas.
Era grande o queimor,
Também a comichão.
Esfregou o rego e as nádegas
Com os dedos da mão.
Picavam-lhe mosquitos
Em vários lados.
Coçou o corpo e a cara
Com os dedos borrados.
Vestiu-se e zarpou
Com ares pouco ridentes,
Cheio de pressa
E merda até aos dentes.
domingo, 16 de maio de 2010
Saudades tuas
Empreteço os tempos que me atormentam
O coração ávido dum beijo teu.
A cada segundo volvido aumentam
Saudades tuas, lamento meu.
Conto as horas que vêm para te ver,
Ânsia nos meus sonhos em pesadelo
Se sonhar contigo, em te perder:
Sonho, o qual, mais que quero, é esquecê-lo.
Lembro o teu sorriso e o olhar sereno
Como as ondas do mar calmo ao fim do dia.
Não sei se é antídoto ou veneno.
Mesmo de infinda a distância que nos separa,
Quando, ao longe, sinto a tua voz tão doce e clara
O meu peito pula e salta de alegria.
O coração ávido dum beijo teu.
A cada segundo volvido aumentam
Saudades tuas, lamento meu.
Conto as horas que vêm para te ver,
Ânsia nos meus sonhos em pesadelo
Se sonhar contigo, em te perder:
Sonho, o qual, mais que quero, é esquecê-lo.
Lembro o teu sorriso e o olhar sereno
Como as ondas do mar calmo ao fim do dia.
Não sei se é antídoto ou veneno.
Mesmo de infinda a distância que nos separa,
Quando, ao longe, sinto a tua voz tão doce e clara
O meu peito pula e salta de alegria.
terça-feira, 11 de maio de 2010
Um homem sozinho
Perguntei a um homem sozinho,
Caído no chão
Desamparado:
- Porque vives abandonado,
Nas bermas deste caminho,
Qual é a tua história?
- Levei a vida em vão
Por trâmites sem qualquer glória,
Uma companhia, um amigo,
De alguém que caminhou comigo
Já não tenho memória.
Continuei apreensivo:
- Porque não te ergues e vais em frente,
Que pensas fazer doravante?
- Estou velho, cansado e doente,
Um moribundo, um indigente
Sem alento, sem vontade
De ir avante.
- E aqueles que, por ti, nutrem amor,
Que te foram força na dura adversidade?
- Esses, se os há, não sei,
Se os houve, nunca os encontrei.
Do mundo só trago dor.
Espero, ao crepúsculo, o anoitecer,
O fatídico perecer
No destino da idade.
Respondi-lhe compadecido:
- Estou agora aqui contigo.
- Mas hoje é tarde - returquiu.
E chamou-me amigo.
Caído no chão
Desamparado:
- Porque vives abandonado,
Nas bermas deste caminho,
Qual é a tua história?
- Levei a vida em vão
Por trâmites sem qualquer glória,
Uma companhia, um amigo,
De alguém que caminhou comigo
Já não tenho memória.
Continuei apreensivo:
- Porque não te ergues e vais em frente,
Que pensas fazer doravante?
- Estou velho, cansado e doente,
Um moribundo, um indigente
Sem alento, sem vontade
De ir avante.
- E aqueles que, por ti, nutrem amor,
Que te foram força na dura adversidade?
- Esses, se os há, não sei,
Se os houve, nunca os encontrei.
Do mundo só trago dor.
Espero, ao crepúsculo, o anoitecer,
O fatídico perecer
No destino da idade.
Respondi-lhe compadecido:
- Estou agora aqui contigo.
- Mas hoje é tarde - returquiu.
E chamou-me amigo.
sábado, 8 de maio de 2010
Merda coladiça
Ó Frederico
Coisa feia no penico
Ó Acácio
Coisa feia no bacio
Ó Odete
Coisa feia na retrete
Ó Sabina
Coisa feia na latrina
Ó Ferreira
Coisa feia na arrastadeira
Ó Mário
Coisa feia no sanitário
Ó Albano
Coisa feia no cano
Ó Urraca
Coisa feia na cloaca
Ó clara
Coisa feia na estrada
Ó Viriato
Coisa feia no sapato
Coisa feia
Que se pisa, prega e cola
E, quando se prende à sola,
Não há qualquer panaceia
Que a desprende ou descola.
Deixa um aroma que estala
Quando se prega ao sapato
E até mesmo suja o fato
De alguém que anda de gala.
Mesmo quem raspa e quem esfrega
Numa esquina de lancil,
Coisa feia que se prega,
Dificilmente se desprega,
Nem à roda de esmeril;
Coisa feia coladiça,
Coisa feia pegadiça.
Ó Frederico
Toda a gente te queria se fosses rico.
Ó Clara
Toda a gente te queria se fosses rara.
Se fosses ouro
Eras um tesouro.
Coisa feia no penico
Ó Acácio
Coisa feia no bacio
Ó Odete
Coisa feia na retrete
Ó Sabina
Coisa feia na latrina
Ó Ferreira
Coisa feia na arrastadeira
Ó Mário
Coisa feia no sanitário
Ó Albano
Coisa feia no cano
Ó Urraca
Coisa feia na cloaca
Ó clara
Coisa feia na estrada
Ó Viriato
Coisa feia no sapato
Coisa feia
Que se pisa, prega e cola
E, quando se prende à sola,
Não há qualquer panaceia
Que a desprende ou descola.
Deixa um aroma que estala
Quando se prega ao sapato
E até mesmo suja o fato
De alguém que anda de gala.
Mesmo quem raspa e quem esfrega
Numa esquina de lancil,
Coisa feia que se prega,
Dificilmente se desprega,
Nem à roda de esmeril;
Coisa feia coladiça,
Coisa feia pegadiça.
Ó Frederico
Toda a gente te queria se fosses rico.
Ó Clara
Toda a gente te queria se fosses rara.
Se fosses ouro
Eras um tesouro.
terça-feira, 4 de maio de 2010
Quatro ventos
Com a brisa do norte fria,
Com a aragem quente do leste
Vêm beijos de poesia
Seja citadina ou agreste.
Do sul, em canto, a melodia,
Do ocidente, ao vento, entoada,
Soam delicados ecos de poesia
Como bela sinfonia afinada.
Com a aragem quente do leste
Vêm beijos de poesia
Seja citadina ou agreste.
Do sul, em canto, a melodia,
Do ocidente, ao vento, entoada,
Soam delicados ecos de poesia
Como bela sinfonia afinada.
sábado, 1 de maio de 2010
Vai, trabalhador
Trabalha, trabalhador.
O teu braço cansado ergueu cidades.
Vai à luta, lutador.
Trabalha, trabalhador
Que fizeste idades.
Vai, alevanta algo de novo,
Primogénito da destreza.
Póe o pão na mesa.
Vai, virtude e nobreza do povo.
O teu braço cansado ergueu cidades.
Vai à luta, lutador.
Trabalha, trabalhador
Que fizeste idades.
Vai, alevanta algo de novo,
Primogénito da destreza.
Póe o pão na mesa.
Vai, virtude e nobreza do povo.
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