Vi
Os rios a serpear,
A brisa, de leve, a soprar,
Os pássaros no céu a voar,
As ondas do mar a quebrar,
As árvores, ao vento, a dançar,
Safiras e esmeraldas a brilhar,
Um sino, na torre, a tocar,
Um velho baloiço a balouçar,
O sol, no céu, a raiar.
Vi
Mil cores do arco-da-velha,
A lua que no firmamento espelha
A magia do luar,
O uivo dum lobo em silhueta,
O som estrénuo de trombeta,
Pelos ares a acalentar,
As montanhas brancas de neve
Das histórias de embalar
Que tão bem o tempo escreve.
Vi
Os peixes no mar a nadar
Salgado com o mais fino sal,
Belas estrelas a cintilar
No escuro espaço sideral,
Um diamante raro e puro,
Um morango já maduro,
O amor que faz amar,
Panaceia universal,
Vi a pedra filosofal.
Vi
Tesouros de atarantar
Em ilhas de fantasia
Com aroma, a flores, no ar
E fragrâncias de alegria,
Uma rocha com forma estranha
Perdida em algum lugar,
Traços de beleza tamanha
Do crepúsculo a iluminar
Quentes tardes de nostalgia.
Vi
O sono monótono e dormente
Duma máquina a maquinar
Inconstante, constantemente
Incessante, sem cessar,
O grito intenso e mordaz
De um martelo a martelar,
Ode poética e loquaz
De um poeta a poetar,
Da indústria, a declamar.
Vi
A Primavera e os anseios,
Nos jardins, de amores sinceros,
O Verão que, nos meneios,
Traz, singelos, os seus esmeros,
O Outono a folhear
As copas enrubescidas
Que o Inverno, a desnudar,
Despindo-as, as traz despidas,
Numa canção de embalar.
Vi
O gado no prado verde
Tão sereno, a deleitar
Saciando fome e sede
Na erva fresca a crescer,
Num riacho ali a passar
De água límpida a correr,
Um catraio a brincar
Sem nunca se aperceber
Sem nunca parar para pensar.
Vi
A serra tão longe, além
Do horizonte que fascina,
O carinho duma mãe
Trazendo ao colo uma menina,
Uma fada tão brilhante
Numa terra encantada
Dum reino antigo e distante
Doutro tempo, doutro instante,
Uma rosa encarnada.
Vi
A beleza de arrebol
A tingir o firmamento,
A calmaria ao pôr-do-sol,
O sabor doce dum momento,
A maravilha colorida
Duma aurora boreal
Magia, há muito esquecida
D'enlevo celestial,
Uma cidade d'oiro perdida.
Vi
O mundo na minha mão
Pintado duma estranha cor
Com a perícia dum artesão,
O sonho, todo o esplendor
Deste leito onde me aninho
Ao abrigo dos males da sorte,
Vi a vida até na morte
Na candura do teu amor
Na brandura do teu carinho.
domingo, 1 de agosto de 2010
quarta-feira, 28 de julho de 2010
A marcha do medo
Choro as mágoas das montanhas no Inverno
E as chuvas gravadas em tremenda tempestade,
A angústia do fogo que alimenta o inferno
Desta vida que se esbate aos pés da idade.
Os pios ladinos são como lamentos roucos
De harmonia perdida numa cor escura.
Os risos de alegria, já tão raros e poucos,
São prantos trazidos no peito da amargura.
As lágrimas vertidas salgando a terra
Fazem ninhos de palha e tão fina prata
Da bruma ardente que se abate e cerra
Tingindo de breu o céu, outrora azul.
Do norte, assustado, aguardo o tormento,
Temendo o terror que marcha do sul.
E as chuvas gravadas em tremenda tempestade,
A angústia do fogo que alimenta o inferno
Desta vida que se esbate aos pés da idade.
Os pios ladinos são como lamentos roucos
De harmonia perdida numa cor escura.
Os risos de alegria, já tão raros e poucos,
São prantos trazidos no peito da amargura.
As lágrimas vertidas salgando a terra
Fazem ninhos de palha e tão fina prata
Da bruma ardente que se abate e cerra
Tingindo de breu o céu, outrora azul.
Do norte, assustado, aguardo o tormento,
Temendo o terror que marcha do sul.
quarta-feira, 21 de julho de 2010
Sonho
Sonho.
Tudo o que almejo é-lhe medida.
Corro por orlas infindas
À procura de mim,
Perdido entre flores tão lindas
De um pequeno jardim.
Na bruma, perdida, segue vida
Sem se despedir.
Tiro-lhe o chapéu e sorrio
Um sorriso acanhado.
As rugas do franzir da testa
São meu ar cansado.
Deixo-a ruir.
Só o sonho é meu refúgio,
Se ela me é adversa
Como fortes correntes dum rio
Onde me abafo e afogo
Num ramalhete de injúrias.
Sonho
E me encontro num toque de estranheza
Com o alheio que virá advir.
Sonho e me desperta a leveza
Quando me deito
E deleito
A dormir.
Tudo o que almejo é-lhe medida.
Corro por orlas infindas
À procura de mim,
Perdido entre flores tão lindas
De um pequeno jardim.
Na bruma, perdida, segue vida
Sem se despedir.
Tiro-lhe o chapéu e sorrio
Um sorriso acanhado.
As rugas do franzir da testa
São meu ar cansado.
Deixo-a ruir.
Só o sonho é meu refúgio,
Se ela me é adversa
Como fortes correntes dum rio
Onde me abafo e afogo
Num ramalhete de injúrias.
Sonho
E me encontro num toque de estranheza
Com o alheio que virá advir.
Sonho e me desperta a leveza
Quando me deito
E deleito
A dormir.
domingo, 18 de julho de 2010
A alegria da bicharada V
O mocho, na alquimia, era artesão
Da ciência de segredos escondidos.
Procurou, nos empoeirados livros antigos
Com perseverante convicção,
Extraindo, no seu teor,
As técnicas da transmutação,
A pedra filosofal.
Encontrou o que procurava
Depois de tanto lavor
Nos alambiques e retortas,
Que o seu laboratório apinhava.
Tinha aberto todas as portas
A tão insigne mas dura arte.
O rei, cobiçando o imenso tesouro,
Entregou-a nas mãos do mal,
Transformando tudo em ouro.
Era ouro por toda a parte.
Mais tarde, perante o seu horror,
Tanto ouro saiu-lhe caro.
Perdera todo o seu valor
Pois tudo tanto vale
Quanto mais raro.
Da ciência de segredos escondidos.
Procurou, nos empoeirados livros antigos
Com perseverante convicção,
Extraindo, no seu teor,
As técnicas da transmutação,
A pedra filosofal.
Encontrou o que procurava
Depois de tanto lavor
Nos alambiques e retortas,
Que o seu laboratório apinhava.
Tinha aberto todas as portas
A tão insigne mas dura arte.
O rei, cobiçando o imenso tesouro,
Entregou-a nas mãos do mal,
Transformando tudo em ouro.
Era ouro por toda a parte.
Mais tarde, perante o seu horror,
Tanto ouro saiu-lhe caro.
Perdera todo o seu valor
Pois tudo tanto vale
Quanto mais raro.
terça-feira, 13 de julho de 2010
Empunhei a espada
Empunhei a espada e deferi, em verso,
A todo um exército já disperso:
Tirai os olhos do chão, irmãos em desespero,
Não há vergonha na derrota.
Tende vergonha na guerra,
Mãe do desterro.
Tende vergonha na guerra,
Que amarrota,
Amordaça o justo e enaltece o déspota.
Tornou o sol, então,
Àquele dia de chuva e tempestade.
A todo um exército já disperso:
Tirai os olhos do chão, irmãos em desespero,
Não há vergonha na derrota.
Tende vergonha na guerra,
Mãe do desterro.
Tende vergonha na guerra,
Que amarrota,
Amordaça o justo e enaltece o déspota.
Tornou o sol, então,
Àquele dia de chuva e tempestade.
quarta-feira, 7 de julho de 2010
O milagre da vida (O grito da loucura)
O milagre acontece no calor do ventre,
Princípio de existir. A célula, minúsculo grão
De vida, traz escrita a génese do futuro ente
Como se o destino tecesse em carne e sangue então
Cada minucioso entalhe da forma do corpo despido,
Cada sentido que ouve, cheira, vê e sente.
Nasce a consciência, cresce o conhecimento,
A arte, a ciência, a técnica, o pensamento,
A filosofia da moral e de todas as religiões.
O ser evolui alheado do mundo mas apaixonado,
Trazendo consigo e em si o ditame das emoções,
O requebre da vida que o faz enamorado.
Cada parte que o forma parece pensar por si,
Parece conter todos os segredos da criação,
Formando um todo que, triste, chora e alegre, ri,
Um todo capaz de amar e sentir paixão
Traçada na mais bela palavra amor,
Capaz de odiar e deixar-se entregue à dor.
Tudo isso é canto em plena entoação
Ao som da música do bater do coração.
Princípio de existir. A célula, minúsculo grão
De vida, traz escrita a génese do futuro ente
Como se o destino tecesse em carne e sangue então
Cada minucioso entalhe da forma do corpo despido,
Cada sentido que ouve, cheira, vê e sente.
Nasce a consciência, cresce o conhecimento,
A arte, a ciência, a técnica, o pensamento,
A filosofia da moral e de todas as religiões.
O ser evolui alheado do mundo mas apaixonado,
Trazendo consigo e em si o ditame das emoções,
O requebre da vida que o faz enamorado.
Cada parte que o forma parece pensar por si,
Parece conter todos os segredos da criação,
Formando um todo que, triste, chora e alegre, ri,
Um todo capaz de amar e sentir paixão
Traçada na mais bela palavra amor,
Capaz de odiar e deixar-se entregue à dor.
Tudo isso é canto em plena entoação
Ao som da música do bater do coração.
sábado, 3 de julho de 2010
Dormia sozinho
Um menino dormia
Num sono profundo,
Triste c'oa vida,
Cansado do mundo.
Um menino dormia
Num sono profundo.
Dormia sozinho
Sem o zelo de alguém,
Sem eira nem beira,
Sem casa nem ninho,
Dormia sozinho
Um menino sem mãe.
Uma lágrima pura,
Na face escorria.
Nas ruas d'amargura,
Um sono profundo
Um menino dormia,
Cansado do mundo.
Sem o zelo de alguém,
Um abraço, um carinho,
Cansado do mundo,
Dormia sozinho
Num sono profundo,
Um menino sem mãe.
Num sono profundo,
Triste c'oa vida,
Cansado do mundo.
Um menino dormia
Num sono profundo.
Dormia sozinho
Sem o zelo de alguém,
Sem eira nem beira,
Sem casa nem ninho,
Dormia sozinho
Um menino sem mãe.
Uma lágrima pura,
Na face escorria.
Nas ruas d'amargura,
Um sono profundo
Um menino dormia,
Cansado do mundo.
Sem o zelo de alguém,
Um abraço, um carinho,
Cansado do mundo,
Dormia sozinho
Num sono profundo,
Um menino sem mãe.
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