domingo, 15 de maio de 2011

A viagem

Sabia que lhe esperava uma grande viagem. Procurei perceber o que o impedia. Reparei que a jangada não bulia devido à baixa profundidade das águas perto da costa tão serenas que se era incapaz de distinguir as ondas. Quando me abeirei da jangada, descobri que se encalhara em cima duma letra S deslocada da palavra BRUXELAS, porventura escrita numa outra língua. Empurrei-a para a frente, caindo em terra seca. Disse-me ele que o mar tinha recuado. Corri ao longo da praia e arremessei-a para o mar. A jangada era uma palete de madeira frequentemente usada no transporte de mercadorias. O mar bravo puxava-a para si, enquanto as ondas a devolviam violentamente à costa. A viagem não era apenas para a jangada e, por isso, ele resgatou-a. Compreendi, então, o meu erro.

sábado, 14 de maio de 2011

Desamparada

Estrias na face marcadas
Por duras lágrimas a escorrer
De tristes vistas lavadas
Pelo pranto ao anoitecer
São cantos, são hino
Às injúrias da vida.
Na capela, toca o sino
Deixando só a quem, o destino
Irá deixar esquecida.

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Igrejas e relógios

Subo as imensas escadas que dão ao topo da montanha. Levo algumas horas a lá chegar. As escadas continuam no interior da igreja intervaladas por grandes patamares ladeados por outras igrejas. Eram miríades de igrejas dentro de uma igreja. E essas igrejas são relógios. São relógios do tamanho de grandes igrejas até se perder a vista.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Ser livre

É sentir-se igual em ser diferente,
Aceitar diferenças, sua ciência,
É ter força de quem, clemente,
Encontra abrigo na clemência.

É estar em casa em terra alheia
E correr mundo sempre em casa
É ir mais longe somente em ideia,
Voar tão alto sem ando ou asa.

É, da contenda sentir repulsa,
Adversar a guerra vivendo em paz,
Amar a vida que bate e pulsa.

É, sendo tão fraco, ser o mais forte,
Não temer o tempo, o que ele traz
E com um sorriso, olhar a morte.

domingo, 1 de maio de 2011

Nunca mais colhi flores

Nunca mais colhi flores.
Quando colho uma flor,
Ela passa a ser só minha
E acaba por murchar.
Se não a colher,
Ela será de quem a quiser
E viça.
Pode vir alguém e colhê-la para si.
A flor passa a ser dele
Mas murcha,
Deixa de ser de ninguém
E continuar viçosa.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

O escolhido

Escorria-lhe o suor da fronte,
Lábios pelo sol gretados,
Olhos postos no horizonte,
Os dedos dos pés cortados
 
Levava ao colo um menino,
Inocente e pequenino
Nas areias do deserto.
Para onde ia, ao certo,
 
Era incógnita do destino.
Às garras do mal fugia,
Se esquivava à tirania
D'alguém déspota e bardino.
 
Seguia-o, como um cortejo
Bélico, uma multidão
Àquele cuja traição
Iria beber dum beijo.
 
O homem que o levava,
Levava-o, longe da guerra,
O menino que julgava
Um dia salvar a Terra.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Candeeiro da esquina

Candeeiro da esquina
Que alumias o caminho,
Alumia-me este escuro
Onde me encontro sozinho.

Candeeiro da esquina
Que alumias a calçada,
Alumia-me este escuro
Pois assim não vejo nada.

Candeeiro da esquina
Que alumias velha quelha,
Alumia-me este escuro
C'oa luz da tua centelha.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Cortesia de rua

Bom dia, dona Maria,
Como tem, moça, pastado?
Como há pasto em demasia,
Muito bem, muito obrigado!

Boa tarde, dão Duarte,
Como tem, senhor, pastado?
Como há pasto em toda a parte,
Muito bem, muito obrigado!

Boa noite, dona Maria,
Como tem, moça, pastado?
Incauta, quase comia
Pasto ruim: seco e estragado!

sábado, 12 de março de 2011

Sonhando com o mesmo amor

Porque ainda mais se cansam
Os teus cansados olhos de chorar?
Porque o meu coração tanto ama
A quem já não posso amar.
Como te assola tão vil demónio,
Essa dor que fere e punge a alma?
S'amarrou meu amor
Com laços de matrimónio.
Só a morte me trará calma.
Porque não segues adiante,
Procuras um amor diferente
E deixas a dor no passado?
Porque o sofrimento é constante
De quem está sempre presente
Mesmo quando ausentado.
Porque ao teu frio leito
Não o aquece um outro alguém?
Porque lugar no meu peito
Não sobra para mais ninguém.

Tomei o café e saí
Pois a hora girava a mó.
Desde então, não mais a vi.

Levava-lhe a idade o verdor
Para acabar só,
Sonhando com o mesmo amor.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Razão do meu desejo

Num dia quente de sol e fragrância amena
S'encantou meu coração num mero olhar.
Corada de arrebol e distinta pele morena,
Fina flor de açucena do meu sonhar.

No meu peito, amigo, se inflamou,
Do seu sorriso d'alma airosa e ladina,
Dos seus jeitos e trejeitos de menina,
O amor perdido que, então, se encontrou.

E ora, olhando o céu, rente à noitinha,
Espreitam estrelas cuja paz almejo,
M'apoquenta a guerra, inquietação minha,

Como o mar quando se agita ao vento frio.
Sou folha seca atirada ao desvario.
Sabes... Ela é o mundo e a razão do meu desejo.

sábado, 25 de dezembro de 2010

O Rei nasceu

Pegureiros olhavam no céu
Uma luz no frio negro.
O Rei nasceu
Sem castelos, sem muralhas,
Para alcançar grandes vitórias
Sem o sangue das batalhas.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Uma história d'antes

A noite ia alta e crepitava,
Na lareira acesa,
Uma história que se contava
Dum livro aberto sobre a mesa.
O luar, à janela, espreitava
Por entre núvens e um galho que lhe batia,
De leve, na sobranceira elevada.
Aquilo que o avô lhe lia,
Os velhos tempos lembrava,
Belos contos de magia
Nos serões de nostalgia,
Ao neto que o escutava.
Dizia-lhe, com voz de sabedoria:
Nos muitos séculos que passaram,
Muitas guerras se travaram
Moldando o mundo de agora.
Hoje a história não é mágica,
Encanto que te adormece,
São histórias da História,
Da História dura e trágica
Que, como a noite fria lá fora,
Cada vez, mais se enegrece.
O neto fitava-o estarrecido,
Pois, para o Homem, a glória
É inglória dum homem embrutecido.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Professor presunçoso

O homem da sala
Crê-se um campeão
Por olhar um livro
P'ra dar a lição.

No jeito jactante,
Ar de mofa traz.
Trata cada aluno
Como um incapaz.

Mas debaixo desse
Sorriso de troça.
Encontra-se um asno
A puxar 'ma carroça.

O homem da sala
Que dá a lição,
Por olhar um livro
Crê-se um campeão.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Levado contigo

Tempo que foges e tudo mudas,
Da pele de cordeiro à pele de judas,
Já não tenho o passo que te acompanha.
Onde termina teu desaguar,
O teu fluir de imensidão tamanha?
A tua viagem é a minha viagem,
O teu andar é o meu andar
Mas não te posso acompanhar.
Já não sou roda na engrenagem
Nesta máquina de perpétuo movimento
De astros e tantas coisas mais.
Tempo, de onde vens, para onde vais?
Tudo, em ti evolui e eu me quedo,
Imutável, fixo, inalterável, permanente
Sem alguma intriga, algum enredo
Onde me prenda, me esconda, me enrede,
Me torne história. Sigo silente, indiferente,
Só existes para além de mim
Da minha memória que já nem de ti sabe,
Deste sentir que já nem em ti cabe.
Navego um mar de calma com ilhas de frenesim,
Intemporais como um todo teu
Vazio de tudo o quanto é meu
Sentindo apenas não ver o fim.
Levas-me pela mão, qual amigo
E sou, sem querer, levado contigo.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Habituado ao escuro

Não me exijas zelo,
Que cuide do que me cuida,
Sequer alegria.
Caído no fundo do poço,
No chão duro
Rocha fria,
o meu único alento,
Neste momento,
Foi ter-me habituado ao escuro.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Filhos da puta

Estou cansado desta lida,
Desta vida de labuta,
De manter filhos da puta.

Pago o imposto do trabalho,
Do transporte e rendimento;
Pago-o, se compro um jumento
Pago-o, se esfrego o caralho
Com a ponta de um ramalho
P'ra encher, com tanta luta,
O cú aos filhos da puta.

Pago, aos porcos, conezias,
Prebendas e sinecuras,
Aos paneleiros, loucuras,
Suas taras e manias.
Na mona, todos os dias,
Uma ideia me matuta:
Foder os filhos da puta.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Enamorado

Onde o céu se encosta ao mar
E o dia à tardinha enrubesce,
O sol por aí se deita cansado
Quando a noite vem e escurece.
Aí me encontras enamorado,
Aqui sentado,
Contigo, em devaneio, a sonhar.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Sangue e verdade

Porque será fonte de vida, o sangue,
Quando sadio
E tão repugnante, quando langue,
Escorre frio?
Porque a verdade, na realidade,
Tem traços de dualidade.

domingo, 7 de novembro de 2010

Sábio ignoto

Numa orla, à beira mar,
Num país assaz distante,
Sentado, estava a pensar
Absorto, um sábio errante.
Via o mundo com minúcia,
Destrinçava a natureza
Lançava luz com argúcia
Sobre a sua escureza.
Escreveu doutas palavras
Em tão fina e branca areia.
Cada sulco eram lavras,
Monumentos da ideia.
Alou e segiu avante,
P'ra trás ficou o seu tento
Nas palavras, nesse instante,
Esquecidas pelo tempo.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Amor

O amor acorda esta calma que desperta
Tanta sede de vida em mim.
É o sublime sentimento que me liberta
Deixando tudo de ser assim,
Tudo o que outrora era.
Faz-me sentir limpo, dealbado, puro,
Faz-me sentir tão seguro
Num assombro de esplendor
De tão deslumbrante, o amor.