sábado, 7 de abril de 2012

Pequena oração pascal

Devotos da guerra
Habitam a Terra
Mesmo em tempos de Concórdia.
Oremos para que a Cruz
Lhes revele a Luz
Da Misericórdia.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

À noite

À noite púrpura queda e calma
Escuto o silêncio ao luar.
Traz consigo dúvidas à alma
Das certezas do dia que tarda a clarar.

Como uma pérola negra de azeviche
Esconde no escuro terno encanto
E somente ostenta um luto triste
Porque se enfeita com um negro manto.

Uivos cavos ecoam ao relento
Como lamúrias da morte e do além.
Serão solitários tormentos de alguém?

São ténues e tímidos segredos do vento
Que trazem, do sol, na brisa, o calor
Entoando, à noitinha, um hino de amor.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Sem sonhos

Antes sonhava,
Vivia contente.
Agora, sem sonhos, descontente
Nada mais sou que uma pedra do chão.

Pessoas sem sonhos, o que são?
Meros aglomerados de matéria e massa,
Cingidos às leis da Física,
Esta, que sem maginação,
Sem sentido, sem graça,
É magra e tísica.

Já não diviso a diferença
Entre os verbos "facetar" e "degolar".
São somente, sobre objectos, acções -
- Objectos pessoa
Atirados à toa
Sobre a Terra imensa.
Sem sonhos, não há sentença.

Talvez sonhe. Talvez queira encontrar,
Nos corpos vestidos que olho e vão,
O calor que perdi.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

A velha sentada

A velha que está
Sentada, à cancela,
Acena a quem passa,
Sem tempo, por ela.

Homens e mulheres
Vão c'um grão na asa
De casa p'ra faina,
Da faina p'ra casa.

Da terra, o pão,
Ceifam com suor.
Tiram alimento
Do árduo labor.

A velha sentada
Que os vê passar
Também já foi uma
Mó a trabalhar.

Porém a idade
Levou-lhe vigor
E agora, à cancela,
Descansa ao calor.

A velha que está
Sentada à cancela
Por ela todos passam
Ninguém dá por ela.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Reduzindo o sentimento a uma equação

Vou reduzir o sentimento a uma equação.
Oh não!
Encrenquei numa divisão por zero.
Quiçá seja falta de esmero
Ou talvez falta de tempero.
Já mais não quero
Cair nesta tentação.
Vou-o deixar como está, o sentimento,
Como o vento.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Como o teu olhar

Olhei para o céu,
Vi o sol a brilhar
Quase tão brilhante
Como o teu olhar.

Olhei duma duna
O sereno mar
Imenso e azul
Como o teu olhar.

Olhei para as árvores
Ao vento a bailar.
Tinham tanta graça
Como o teu olhar.

Olhei os verdes campos,
A erva a grassar
E as flores eram lindas
Como o teu olhar.

Olhei o meigo gado
O pasto a pastar
Tão manso e tão calmo
Como o teu olhar.

Olhei na seara
O trigo a ondular,
Era um manto d'oiro
Como o teu olhar.

Olhei os maduros
Frutos do pomar.
Eram tantas cores
Como o teu olhar.

Olhei os passarinhos
Em coro a piar.
Bela era a harmonia
Como o teu olhar.

Olhei grandes peixes
Na água a nadar.
Traziam frescura
Como o teu olhar.

Olhei a brancura
Da neve, ao luar,
Tão alva, tão pura
Como o teu olhar.

Olhei a cidade
Com gente a passar.
S'enchia de vida
Como o teu olhar.

Olhei os monumentos
A história a contar.
São mestres dos tempos
Como o teu olhar.

Olhei as usinas
Sempre a fabricar,
Teimosas meninas
Como o teu olhar.

Olhei preciosas
Pedras de encantar.
Tinham tanto encanto
Como o teu olhar.

Olhei uma criança
Na rua a brincar
Cheia de esperança
Como o teu olhar.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Febre

Tenho na cabeça gravilha
Numa zoeira de ensurdecer.
Como um mafarrico que estrilha
E então me faz endoidecer.


Longas lanças o cerebelo
M'alanceiam com furor.
Na testa, um pano com gelo
Me abafa este grão calor.


Vem vertigem, vem tontura,
Também vem loucos delírios
E enquanto não vem a cura
Não mais vão os meus martírios.