quarta-feira, 9 de maio de 2012

Fui vilão

Chutei uma pedra
Tão dura, tão dura.
Que incúria, que incúria,
Dolente amargura!

Saiu disparada
Da ponta do pé,
Batendo com força
Na mona do Zé.

O homem gritou,
Correu estouvado,
Caiu estendido
No chão desmaiado.

Quão grande inchação
Fez-lhe a pedra dura
Tão negra, tão negra,
Tão escura, tão escura!

E eu claudicava,
Volvia a gemer.
Era intensa a dor
No pé a doer.

Alguém que passava
Mesmo ali ao lado,
Viu-me a saltitar
E o homem deitado.

Chamou a ambulância,
O padre e a guarda
Chegaram bombeiros,
Mas que linda farda.

Vieram polícias,
Doutores, jornalistas,
Também chimpanzés,
E até trapezistas.

Vi tantas pessoas,
Gordas e carecas
Vi altas, vi baixas,
Magras e marrecas.

Grande era a assistência
Ao palco montado:
Eu a agoniar
E o homem deitado.

Saiu a notícia
Na televisão.
O homem foi mártir
E eu fui vilão.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Ó morte

Ó morte que me acalenta,
Grã virtude do fim da idade
Traz-me a sorte da liberdade
Do azar que me atormenta.

Ó morte, da vida eterna companheira,
Que traz, o tempo, na certa hora.
Vem aqui, à minha beira,
Vem agora, sem demora.

Ó morte, menina do meu encanto,
Monstra imane d'ontem temida
Vem hoje que te amo tanto
O quanto outrora amei a vida.

sábado, 7 de abril de 2012

Pequena oração pascal

Devotos da guerra
Habitam a Terra
Mesmo em tempos de Concórdia.
Oremos para que a Cruz
Lhes revele a Luz
Da Misericórdia.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

À noite

À noite púrpura queda e calma
Escuto o silêncio ao luar.
Traz consigo dúvidas à alma
Das certezas do dia que tarda a clarar.

Como uma pérola negra de azeviche
Esconde no escuro terno encanto
E somente ostenta um luto triste
Porque se enfeita com um negro manto.

Uivos cavos ecoam ao relento
Como lamúrias da morte e do além.
Serão solitários tormentos de alguém?

São ténues e tímidos segredos do vento
Que trazem, do sol, na brisa, o calor
Entoando, à noitinha, um hino de amor.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Sem sonhos

Antes sonhava,
Vivia contente.
Agora, sem sonhos, descontente
Nada mais sou que uma pedra do chão.

Pessoas sem sonhos, o que são?
Meros aglomerados de matéria e massa,
Cingidos às leis da Física,
Esta, que sem maginação,
Sem sentido, sem graça,
É magra e tísica.

Já não diviso a diferença
Entre os verbos "facetar" e "degolar".
São somente, sobre objectos, acções -
- Objectos pessoa
Atirados à toa
Sobre a Terra imensa.
Sem sonhos, não há sentença.

Talvez sonhe. Talvez queira encontrar,
Nos corpos vestidos que olho e vão,
O calor que perdi.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

A velha sentada

A velha que está
Sentada, à cancela,
Acena a quem passa,
Sem tempo, por ela.

Homens e mulheres
Vão c'um grão na asa
De casa p'ra faina,
Da faina p'ra casa.

Da terra, o pão,
Ceifam com suor.
Tiram alimento
Do árduo labor.

A velha sentada
Que os vê passar
Também já foi uma
Mó a trabalhar.

Porém a idade
Levou-lhe vigor
E agora, à cancela,
Descansa ao calor.

A velha que está
Sentada à cancela
Por ela todos passam
Ninguém dá por ela.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Reduzindo o sentimento a uma equação

Vou reduzir o sentimento a uma equação.
Oh não!
Encrenquei numa divisão por zero.
Quiçá seja falta de esmero
Ou talvez falta de tempero.
Já mais não quero
Cair nesta tentação.
Vou-o deixar como está, o sentimento,
Como o vento.