quarta-feira, 1 de maio de 2013

O Amor


O Amor é arco-da-velha
De mil cores no firmamento
É o sol numa centelha,
Um decénio num momento.

O Amor é misericórdia,
Piedade ao pecador,
Traz acordo, traz discódria,
É escuro, é esplendor.

O Amor é grande vitória
Da virtude da derrota.
É mito, lenda, é história
É fonte que seca e brota.

O Amor é terra e mar,
Um jovem de longa idade,
Desencanto de encantar,
É degredo, é liberdade.

O Amor, de são, delira,
É cego em ver tão bem.
É verdade, é mentira
É tudo e nada também.

O Amor é vida, é morte,
É alegria, é lamento.
É o azar que traz a sorte
Da fortuna de um tormento.

O Amor é Treva, é Luz,
É Deidade, é Demónio.
Tão contrário a si se aduz,
O Amor é também Ódio.

Princesa que a sorte me fez conhecer


Cândida boca de lábios molhados
Onde me encontro e me perco num beijo
Oceânico olhar de olhos ondeados
Onde me afogo e liberto em desejo

Corpo macio, silhueta perfeita
Fragrância a jasmim, a rosa e a cravo
Menina ladina que se esconde à espreita
De cujas saudades de mim fazem escravo

Sol do meio-dia, arrebol d'alvorada
Crepúsculo tardino ao fim da madrugada
Suspiro das minhas noites, auguro dos meus dias

Mélica carícia, sorriso de enternecer
Brilho lunar de estrelas luzidias
Princesa que a sorte me fez conhecer

domingo, 30 de dezembro de 2012

O lado oculto de Fernando Pessoa


Certo dia li, numa daquelas frases escritas não se sei por quem, numa parede, num muro ou num banco de jardim dum lugar ou rua que não me lembro qual, a frase:
«Ser tudo de todas as maneiras porque a verdade não pode estar em faltar ainda alguma coisa.»
Era frequente ler inadvertidamente este tipo de mensagens quando tinha a necessidade de calcorrear grandes distâncias ou esperar pacientemente a hora da partida numa estação de caminho-de-ferro. Devido à profundidade filosófica do conteúdo que pretende transmitir, imaginava o respectivo autor como sendo um valdevinos entregue aos seus delírios auto-infligidos. Porém, como o vim a descobrir mais tarde, trata-se de uma frase que constiui o excerto de um texto de Fernando Pessoa no qual o poeta esboça uma  preconização de uma religião superior aos portugueses. Transmite essencialmente a sua vontade de condensar, numa só, as várias religiões vivas ou adormecidas, necessidade que adveio do seu interesse pelo mundo hermético e ocultista.
A sua ligação com o oculto resultou, por um lado, do contacto de cariz profissional que estabeleceu com livros enquadrados no âmbito da nova era e, por outro, no ressurgimento de uma nova crise intelectual. Esta circunstância levou-o a inteirar-se dos aspectos inerentes às ordens secretas, tais como a Maçonaria ou a Rosa-Cruz. Isto observa-se na citação que epigrafa o seu poema Eros e Psique, trecho da tradução do latim do Ritual do Terceiro Grau da Ordem Templária de Portugal:
...E assim vedes, meu Irmão, que as verdades que vos foram dadas no Grau de Neófito, e aquelas que vos foram dadas no Grau de Adepto Menor, são, ainda que opostas, a mesma verdade.

Eros e Psique

Conta a lenda que dormia
Uma Princesa Encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.
Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.
A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera.
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.
Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado.
Ele dela é ignorado.
Ela para ele é ninguém.
Mas cada um cumpre o Destino -
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.
E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E, vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora.
E, inda tonto do que houvera,
À cabeça em maresia,
Ergue a mão e encontra a hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.
Segundo ele, a título de outro exemplo:
Há três caminhos para o oculto: o caminho mágico (incluindo práticas como as do espiritismo, intelectualmente ao nível da bruxaria, que é magia também), caminho esse extremamente perigoso, em todos os sentidos; o caminho místico, que não tem propriamente perigos, mas é incerto e lento; e o que se chama o caminho alquímico, o mais difícil e mais perfeito de todos, porque envolve uma transmutação da própria personalidade que a prepara, sem grandes riscos, antes com defesas que os outros caminhos não têm.

sábado, 26 de maio de 2012

Eia

Eia princesa dum reino de atarantar!
Eia encanto dum conto de encantar!
Eia graça com que o fado me agraciou!
Eia bela estrela que o meu coração amou.
Eia tenro deleite de formosa deidade
Que faz do tempo de um segundo numa eternidade.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Vi o galo da ti Juca

Vi o galo da Ti Juca,
Atirei-lhe um pau à nuca
E o bicho estrebuchou.
-Estrebucha, estrebucha
Bicho. Pois, além de bruxa,
A tua dona é maluca
E o povo embruxou.
O galo, hirto, tombou,
Caiu pálido de vida exangue.
Gritei vitória, exacerbado
Ao ver esvair-se em sangue,
Morrendo aos poucos deitado.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Fui vilão

Chutei uma pedra
Tão dura, tão dura.
Que incúria, que incúria,
Dolente amargura!

Saiu disparada
Da ponta do pé,
Batendo com força
Na mona do Zé.

O homem gritou,
Correu estouvado,
Caiu estendido
No chão desmaiado.

Quão grande inchação
Fez-lhe a pedra dura
Tão negra, tão negra,
Tão escura, tão escura!

E eu claudicava,
Volvia a gemer.
Era intensa a dor
No pé a doer.

Alguém que passava
Mesmo ali ao lado,
Viu-me a saltitar
E o homem deitado.

Chamou a ambulância,
O padre e a guarda
Chegaram bombeiros,
Mas que linda farda.

Vieram polícias,
Doutores, jornalistas,
Também chimpanzés,
E até trapezistas.

Vi tantas pessoas,
Gordas e carecas
Vi altas, vi baixas,
Magras e marrecas.

Grande era a assistência
Ao palco montado:
Eu a agoniar
E o homem deitado.

Saiu a notícia
Na televisão.
O homem foi mártir
E eu fui vilão.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Ó morte

Ó morte que me acalenta,
Grã virtude do fim da idade
Traz-me a sorte da liberdade
Do azar que me atormenta.

Ó morte, da vida eterna companheira,
Que traz, o tempo, na certa hora.
Vem aqui, à minha beira,
Vem agora, sem demora.

Ó morte, menina do meu encanto,
Monstra imane d'ontem temida
Vem hoje que te amo tanto
O quanto outrora amei a vida.