A vida, essa, se desenha
Em folha de papel fino
Sem esboço e sem resenha,
Desenho sem tento ou tino
Com contorno indefinido
Num padrão em desatino,
Adivinha sem sentido
De rabiscos sem destino
Cada ponto, cada traço,
Cada risco em desalinho
Cada pinta em cada espaço
Cada linha dum caminho
São da ponta do pincel
A forma que de si é ser,
São o relevo dum cinzel
São aguarela a escorrer
São, do lápis que rabisca,
Gatafunhos respigados,
São sombras de vida arisca
Carícias de enamorados
Com tintas a vida pinta
Amor em todas as cores
Traz tristeza a negra tinta
Repleta de dissabores
Se se pinta um coração
Quando se dá uma flor
Desenha-se a emoção
De um afago com calor
Se um olhar é desenhado
Num sorriso colorido
Pinta-se um quadro dourado
Na presença de um amigo
A melancolia é tinta
De núvens dum tom cinzento
E a alegria se pinta
Com a cor do firmamento
Desenho que já se fez
Quando há vida ainda se faz
Contudo, no fim talvez
Se se acaba, se desfaz
sábado, 30 de maio de 2009
quarta-feira, 27 de maio de 2009
Amor insano
Rasto luminescente de estrela cadente
A rasgar vislumbrante de luz o escuro
Firmamento é como o calor que me é ardente,
Um amor que me é voraz, de tão eloquente,
É-me candura na brandura dum terno auguro,
Sabor doce num trago amargo da dura vida.
É filamento de paixão tecido no coração,
Algo que chama, algo que clama, algo que grita
Iluminando de eco o silêncio numa canção,
Lírica de seda irrequieta no peito aflita
Por cantar ao mundo em perfeita entoação.
É erva que grassa verdejante e rosmaninho,
Estranho cavaleiro andante perdido no caminho
Na demanda da beleza de uma donzela enamorada,
Lindo sonho num pesadelo, sentimento irracional,
É magia, encantamento, condão de fada,
Onda ao vento, seara ondulante, manancial
Oscilante doirado dum tesoiro, trigueiral.
Amor insano é que me dá vida e me mata,
Que me faz forte e fraco, oiro, bronze e prata.
A rasgar vislumbrante de luz o escuro
Firmamento é como o calor que me é ardente,
Um amor que me é voraz, de tão eloquente,
É-me candura na brandura dum terno auguro,
Sabor doce num trago amargo da dura vida.
É filamento de paixão tecido no coração,
Algo que chama, algo que clama, algo que grita
Iluminando de eco o silêncio numa canção,
Lírica de seda irrequieta no peito aflita
Por cantar ao mundo em perfeita entoação.
É erva que grassa verdejante e rosmaninho,
Estranho cavaleiro andante perdido no caminho
Na demanda da beleza de uma donzela enamorada,
Lindo sonho num pesadelo, sentimento irracional,
É magia, encantamento, condão de fada,
Onda ao vento, seara ondulante, manancial
Oscilante doirado dum tesoiro, trigueiral.
Amor insano é que me dá vida e me mata,
Que me faz forte e fraco, oiro, bronze e prata.
sábado, 23 de maio de 2009
A alegria da bicharada - Parte II
Ouve-se o telefone - Trim Trim!
O burro acorda sobressaltado,
Irritado por acordar assim!
-Quem será? - Pensa curioso.
Atende! Do outro lado fala o boi.
Pergunta-lhe, então, o burro: - Que foi?
Visivelmente furioso.
-Aconteceu algo incrível na praça.
Continua: -Passou mona por mim,
A galinha de mau humor e sem graça,
Vermelha, a ferver e a dar à asa.
Seguia ligeira para casa,
Parecia que tinha levado um murro.
-Que aconteceu? Que tinha ela?
O boi tinha ganho a atenção do burro.
Responde-lhe: -Chamei-a da janela
Mas ela continua sem me dar sinal.
Saí num rompante de casa e segui-a.
Ela nem sequer me respondia
Mas como sabes, o meu charme é fatal.
Contou-me ela que o grande amigo mocho
Que, apesar de gordo e coxo,
Gritava "eureka" e corria como um campeão
Sem lhe importar a sua admiradora galinha.
-Pobrezinha! Pobrezinha!
Ri o burro. -Afinal aí parece haver paixão,
E pelo andar da carruagem, também ciúme
Que a deixou a arder em lume.
O boi dá uma gargalhada com perspicaz observação
E diz: -concerteza, concerteza
É sabido que aí há amor repleto de beleza.
O burro faz silêncio por um instante,
Respira fundo e pergunta apreensivo:
-Será que o mocho conseguiu? Será que sim?
-Penso que sim, meu amigo!
Returque o boi hesitante.
E deve resultar daí uma alegria assim.
-Temos de falar em pessoa.
Combinam um encontro na adega social.
Não discutem por telefone por não ser coisa boa
E trazer água no bico ou algo mais especial.
O burro acorda sobressaltado,
Irritado por acordar assim!
-Quem será? - Pensa curioso.
Atende! Do outro lado fala o boi.
Pergunta-lhe, então, o burro: - Que foi?
Visivelmente furioso.
-Aconteceu algo incrível na praça.
Continua: -Passou mona por mim,
A galinha de mau humor e sem graça,
Vermelha, a ferver e a dar à asa.
Seguia ligeira para casa,
Parecia que tinha levado um murro.
-Que aconteceu? Que tinha ela?
O boi tinha ganho a atenção do burro.
Responde-lhe: -Chamei-a da janela
Mas ela continua sem me dar sinal.
Saí num rompante de casa e segui-a.
Ela nem sequer me respondia
Mas como sabes, o meu charme é fatal.
Contou-me ela que o grande amigo mocho
Que, apesar de gordo e coxo,
Gritava "eureka" e corria como um campeão
Sem lhe importar a sua admiradora galinha.
-Pobrezinha! Pobrezinha!
Ri o burro. -Afinal aí parece haver paixão,
E pelo andar da carruagem, também ciúme
Que a deixou a arder em lume.
O boi dá uma gargalhada com perspicaz observação
E diz: -concerteza, concerteza
É sabido que aí há amor repleto de beleza.
O burro faz silêncio por um instante,
Respira fundo e pergunta apreensivo:
-Será que o mocho conseguiu? Será que sim?
-Penso que sim, meu amigo!
Returque o boi hesitante.
E deve resultar daí uma alegria assim.
-Temos de falar em pessoa.
Combinam um encontro na adega social.
Não discutem por telefone por não ser coisa boa
E trazer água no bico ou algo mais especial.
quarta-feira, 20 de maio de 2009
Adormeço
Olho pela janela do segundo andar.
A cidade cintila com o lânguido pestanejar
De olhos ensonados. O silêncio dos luzeiros
Bruxuleantes à distância do meu vislumbre
Dão nostalgia ao estado dos meus sabores.
A persiana corrida a meio semi-cerra o deslumbre
Escondido na noite que se faz sentir lá fora.
Quedo-me aqui perpelxo. Fujo ao agora.
O tempo deixou de passar. Escuto sem respirar
O escuro da hora que se faz e adormeço a meditar.
A cidade cintila com o lânguido pestanejar
De olhos ensonados. O silêncio dos luzeiros
Bruxuleantes à distância do meu vislumbre
Dão nostalgia ao estado dos meus sabores.
A persiana corrida a meio semi-cerra o deslumbre
Escondido na noite que se faz sentir lá fora.
Quedo-me aqui perpelxo. Fujo ao agora.
O tempo deixou de passar. Escuto sem respirar
O escuro da hora que se faz e adormeço a meditar.
domingo, 17 de maio de 2009
Infinito
Sento-me numa pedra e penso o infinito
Nestas margens verdejantes.
E, já sentado nesta pedra de granito,
Penso o infinito,
Que há para lá das estrelas cintilantes.
Elas, tão próximas, parecem que bem se beijam,
No entanto, tão distantes
E mesmo por tão afastadas que estejam
Parecem enternas amantes
Abraçadas no uníssono firmamento.
Rio que aos meus pés corres, aqui sentado,
Lavas os sonhos levadios para o mar
De quem aqui se senta, admirado
Com o infinito magnificente de atarantar.
Leva os meus pensamentos mais além
Onde não haja vivalma, onde não more ninguém
Entrega-os ao oceâno que os dê ao céu
Voando ao infinito onde estrelas vivem
Num imenso vazio negro como breu.
Traz-me de volta a luz do seu brilho.
Ó infinito... tu existes dentro de ti
E o que te contém é a tua existência.
Parte de ti é como tu, na sua essência,
Paradoxo que me fez sentar aqui
E meditar com grã prudência.
Quando aumentas incessante, ficas igual,
Ficas assim, ancorado nessa grandeza universal,
Sem limite que te dê forma
Sem forma que te dê fronteira
Livre de qualquer lei, ausente de qualquer norma.
Estas árvores imponentes por trás de mim
Rangem os ramos impelidas pelo sopro do vento,
Parecem ouvir, em silêncio, o meu pensamento
E cantá-lo ao infinito num frenesim.
Aqui sozinho são a minha fiel companhia,
As flores, as aves, as coloridas pedras do chão,
O gado que pasta a farta erva, épica poesia
Da natureza; somente parte do infinito são;
A outra parte, já de si é infinito
Mote do meu pensar nesta pedra de granito.
Todas as esferas se movem no seu interior,
Neste enorme infinito que intriga e espanta,
Numa perfeita harmonia celeste em esplendor
Excelsa consciência irracional que a razão quebranta.
Possui a sabedoria dos tempos, a filosofia da idade,
Infinito que tudo tem, a mentira, a verdade,
Cada riso, cada choro, o sonho, a realidade,
A ciência racional, cada trama da demência,
Desta loucura de ser o infinito que o envolve.
E tudo no infinito mexe, remexe, volve, revolve.
Nestas margens verdejantes.
E, já sentado nesta pedra de granito,
Penso o infinito,
Que há para lá das estrelas cintilantes.
Elas, tão próximas, parecem que bem se beijam,
No entanto, tão distantes
E mesmo por tão afastadas que estejam
Parecem enternas amantes
Abraçadas no uníssono firmamento.
Rio que aos meus pés corres, aqui sentado,
Lavas os sonhos levadios para o mar
De quem aqui se senta, admirado
Com o infinito magnificente de atarantar.
Leva os meus pensamentos mais além
Onde não haja vivalma, onde não more ninguém
Entrega-os ao oceâno que os dê ao céu
Voando ao infinito onde estrelas vivem
Num imenso vazio negro como breu.
Traz-me de volta a luz do seu brilho.
Ó infinito... tu existes dentro de ti
E o que te contém é a tua existência.
Parte de ti é como tu, na sua essência,
Paradoxo que me fez sentar aqui
E meditar com grã prudência.
Quando aumentas incessante, ficas igual,
Ficas assim, ancorado nessa grandeza universal,
Sem limite que te dê forma
Sem forma que te dê fronteira
Livre de qualquer lei, ausente de qualquer norma.
Estas árvores imponentes por trás de mim
Rangem os ramos impelidas pelo sopro do vento,
Parecem ouvir, em silêncio, o meu pensamento
E cantá-lo ao infinito num frenesim.
Aqui sozinho são a minha fiel companhia,
As flores, as aves, as coloridas pedras do chão,
O gado que pasta a farta erva, épica poesia
Da natureza; somente parte do infinito são;
A outra parte, já de si é infinito
Mote do meu pensar nesta pedra de granito.
Todas as esferas se movem no seu interior,
Neste enorme infinito que intriga e espanta,
Numa perfeita harmonia celeste em esplendor
Excelsa consciência irracional que a razão quebranta.
Possui a sabedoria dos tempos, a filosofia da idade,
Infinito que tudo tem, a mentira, a verdade,
Cada riso, cada choro, o sonho, a realidade,
A ciência racional, cada trama da demência,
Desta loucura de ser o infinito que o envolve.
E tudo no infinito mexe, remexe, volve, revolve.
sexta-feira, 15 de maio de 2009
Mãe
Sinto saudade de ti, de trazer no coração
O tanger das olvidas histórias d'encantar
Cobrindo-me de seda macia a tua mão
Com as carícias que vivi ao t'abraçar.
O teu canto, a lembrança da tua voz qu'amima
É o meu gládio na imane desventura da sorte,
Água pura que me faz são e forte,
Estridente alvorada, estrépito que m'anima.
Ainda coras de júbilo o meu tempo obumbrado
Linda como o crepúsculo encarnado de arrebol
E junto a ti, passeio, menino, ao sol
No calor do teu regaço. O cheiro do teu cabelo
M'alenta e mesmo na cruel potestade do fado
Sorrindo digo mãe, que é um nome tão belo.
O tanger das olvidas histórias d'encantar
Cobrindo-me de seda macia a tua mão
Com as carícias que vivi ao t'abraçar.
O teu canto, a lembrança da tua voz qu'amima
É o meu gládio na imane desventura da sorte,
Água pura que me faz são e forte,
Estridente alvorada, estrépito que m'anima.
Ainda coras de júbilo o meu tempo obumbrado
Linda como o crepúsculo encarnado de arrebol
E junto a ti, passeio, menino, ao sol
No calor do teu regaço. O cheiro do teu cabelo
M'alenta e mesmo na cruel potestade do fado
Sorrindo digo mãe, que é um nome tão belo.
segunda-feira, 11 de maio de 2009
Gente, consciência
Gente que anda indiferente
Gente que passeia somente,
Gente feliz que se sente
Gente que se ri de contente,
Que partilha com outra gente
Fazendo delícias da gente
E gente a chorar tristemente;
Gente sozinha e não só,
Gente escutando outra gente,
Gente gentil e clemente,
Outra gente vil e sem dó;
É gente que transia a avenida,
Que enche a rua de vida,
Duma consciência inconsciente.
Gente que passeia somente,
Gente feliz que se sente
Gente que se ri de contente,
Que partilha com outra gente
Fazendo delícias da gente
E gente a chorar tristemente;
Gente sozinha e não só,
Gente escutando outra gente,
Gente gentil e clemente,
Outra gente vil e sem dó;
É gente que transia a avenida,
Que enche a rua de vida,
Duma consciência inconsciente.
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