domingo, 17 de agosto de 2008

A chave da porta

A chave da porta
Que dá para a sala
Está numa mala.
Quem se importa,
Com a chave da porta,
Se a porta está aberta?
Sim! A chave da porta
Está numa mala,
Numa mala coberta
Ao canto da sala.
Só se lembram da chave
Com a porta fechada
E então ninguém sabe
Que a chave usada
Para abrir a porta
Que dá para a sala
Está numa mala,
Na mala da sala
Que a ninguém importa.
No canto da sala
Está uma mala,
Uma mala esquecida.
Dentro da mala
Está uma chave
Que ninguém sabe
Que é a chave da porta
Que dá para a sala,
A sala da vida,
Uma sala fechada
Com a chave perdida.

Sérgio O. Marques

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Cumprimento onomatopaico

Pirilim pirilam
Catrapum coridom
Fratilin anam
Grutilun fanom
Ricaturil amnião
Olá a todos, como estão!
Rircalor formidur
Portiduram ariur
aficul srilália
gtutmian ohjília
preribum curiém
Como estão? Estão bem?

Sérgio O. Marques

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Menina era Estrela

Menina era Estrela,
A estrelinha de sua mãe.
Quando brincava, pulava,
E quando saltava, corria.
Sempre que corava parecia
Mais bonita do que ninguém.
Morava, linda, ao fim da rua
Num andar enamorado,
De dia, com o sol raiado
De noite, com a luz da lua
A enfeitiçar com candura
Qualquer poeta inspirado.
Quão formosa, quão bela,
Põe-se de pé à janela,
Cabelos ao vento a luzir,
A toda a gente a sorrir,
Com um sorriso de encantar.
Janela, de par em par
Aberta, p'ra poder vê-la.
Pois tanta beleza tem!
Menina era Estrela
A estrelinha de sua mãe.

Sérgio O. Marques

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Má razão

A razão é amargura
Que nos veste e por ela
Escondemos a forma pura
Do corpo, de si tão bela.
Ela pesa a consciência
Não a mede ou avalia,
Apenas carcera com veemência
A liberdade natural e s'atrofia
Com vãs águas desditosas
Que não voltam a passar
Nem moínhos volvem mover.
Só mesmo com razão são glosas
De histórias por contar
Memórias de entristecer.
Ela é mãe de todos os reis
Soberanos e presidentes,
De falsas e inúteis leis
E políticas aferentes.
Não há razão num desabrochar,
Em dar à luz, nascimento,
No fim da vida, perecimento,
Nem razão poderá haver.
Despe-se a natureza de mal,
Não é injusta ou sem dó
Para ela mesma, não há razão
Nem razão por si só.
A razão é irracional,
É ilusão, é mera punição
Ao pecado original.

Sérgio O. Marques

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Os detectives

Bom dia senhor boi, como vai!
Diz o burro - como tem pastado?
Aqui, nestes belos prados...
Responde - muito bem, muito obrigado.
Como vai o senhor burro, enquanto sai
Assim todo empavonado
Que nos deixa admirados?
Vou bem, senhor boi, vou bem,
Bem melhor do que ninguém.
Pois, senhor burro, bem tem ruminado,
Estou a ver... Por isso passa a sorrir.
Nada disso, senhor boi. Mas pela preocupação...
Obrigado! É mais para onde estou a ir
(Sorriso matreiro), com muita satisfação.
Num repente, chega o porco esbaforido
Com um traje colorido
A gritar como um demente,
Mas com ares de descontente:
Roubaram a estátua da praça
Mesmo à frente de toda a gente.
Olha que crime sem graça,
Intrigado, murmura o boi.
Diz o porco: ninguém sabe como foi.
Eu e o boi descobrimos - continua o burro
Ou não seja eu casmurro.
De quando trabalharam juntos, não já memória
Mas juntos descobriram - Fora o ourives!
Mas isso já é outra história,
Uma história muito engraçada.
Afinal... São os melhores detectives
Do reino da bicharada.

Sérgio O. Marques

domingo, 3 de agosto de 2008

Monstros do ID

Assombros sorumbáticos do julgamento
Condenados ao irreal degredo
Sito entre a mentira e a verdade,
Fronteira do sonho e realidade,
Consciência inconsciente do pensamento;
Monstros, habitantes da zona do medo
Entes errantes durante o momento
Em que a noite gelada
Se enconsta à quente manhã a dormir
E o dia canta em uníssona alvorada
O nascer do sol em arrebol fulgir;
Oriundos do contra-mundo,
Impelidores do sentimento à vertigem
Do nada e se cai no receio da viagem
Que traz à luz do sono mais profundo;
Invisíveis, só são porque se sente,
Porque se sabe que ali estão,
A entorpecer os corpo a enebriar a mente,
A lancear de mil raios o coração;
Vampiros, alimentam-se do flagelo,
Esse sangue que lhes dá vida e ser
E, na inocência, vivem do pesadelo,
Pois são eles filhos da escuridão;
Queria mostrar-lhes a salvação,
O caminho do sobreviver ao viver
Mas já não sou homem sequer
Para levantar os olhos do chão.

Sérgio O. Marques

sábado, 2 de agosto de 2008

Endonexo

A filosofia endógena
É de dentro para fora,
Cria-se com os olhos fechados
E se mostra quando abertos
Com a habilidade minuciosa de um artista.
E ela manifesta-se quase pura
A fazer o mundo que nos faz.
Assim se criam realidades, chamadas mitos,
Lendas que, sem serem boas ou más,
Vislumbram a perfeição que não têm.
Então, a filosofia exógena, maravilha-se
E floresce.