Avaliar é o tal trabalho
Que serve para dar um valor
Àquilo que decerto valho.
Não me consigo avaliar - penso
- Quanta aflição! Quanta dor!
Já não devo ter valor
Quanta tristeza, sofrimento intenso!
Será ironia? Se calhar!
Não me calho em avaliar.
Façamos, então um teste,
Um teste de avaliação.
Pode ser que venha a peste
Que mate do coração.
Serei bom? Serei mau?
Serei rei dos incapazes
Ou o melhor dos perspicazes
A bater na nuca, um pau?
Avaliemos! Façamos perfil!
Poder-se-ia avaliar cada qual,
Numa escala de zero a mil,
Para descobrir o primeiro
Do povo de Portugal.
Mas isso é fácil: basta o cheiro
Ou então muito dinheiro.
Um dá quinhentos, outro seiscentos
Um, um euro; outro um metro vale.
Há quem não passe de um pneu
Que é escuro como breu
Estampado num postal
Do ano de setecentos.
Mas quem é bom deve ser d'ouro!
Só não é nenhum tesouro
Nem tão brilhante sequer.
É mesmo para esquecer.
Antes cunhemos que, cunhados,
Somos melhor avaliados
Como as moedas dos tempos idos
Fruto d'arte dos antigos.
Avaliemos! Avaliemos!
Ainda nos esquecemos!
Cunhemos antes. Pois cunhar
É bem melhor que avaliar.
Venham grandes avaliadores,
Os mais finos cunhadores
Arrolados num sururu
P'ra nos dar um valor crível.
Provavelmente é preferível
Estar debaixo dos cobertores
Com um termómetro no cú
E um saco de gelo na testa
A bater palmas e a fazer festa.
Sérgio O. Marques
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segunda-feira, 10 de novembro de 2008
sexta-feira, 7 de novembro de 2008
Vampiro
Escuta cada gemido cotundente
Provindo d'alguma catacumba escondida.
Sente o odor de cada urna,
Escaninho d'algo demente.
E essa dor é seu modo de vida.
-Danço lúgrube a valsa nocturna
Com lânguidos passos sob a luz da lua.
Sinto o cheiro do pavor e do medo
De quem me teme em me desconhecer.
Impregna-se este ódio frio em meu ser
Que me gela mórbido desde cedo.
Cresce-me, então, este sórdido desejo
Em lhes sorver o calor que os aquece,
Sacio-me do sangue com delicado beijo
Que me afaga e se me não esquece.
Mas é efémero esse raio de luz
E de novo s'abate a perdição,
Essa fome e essa sede que me seduz.
Deambulo só e há muito na escuridão.
Agora só me fere o rutilar do dia
E nada mais pode haver que m'alumie.
Vejo-o desta janela d'onde durmo
A bailar solitário hediondo
Deslizando suave sobre um ar soturno.
O luar resplandece e me escondo
Do seu olhar terrífico de petrificar.
Ele sabe que o observo e m'amedronta
Na esperança que adormeça para me matar.
Devo suprimi-lo antes que me encontre.
Apenas penso no que me fará, se me vir
No que me terá reservado se m'agarrar:
Beber-me o corpo, a carne haurir.
Espero impaciente o nascer da manhã
Portadora do majestoso sol matinal,
Portentoso desterro dos filhos do mal.
Amanhã estarei preparado. Amanhã!
Quem calcorreia os caminhos de dia
Olvida o silêncio da noite e a companhia
Da lua. Amar é a forma do ser mais pura,
Seja ao sol do dia, como à noite errante.
Sim! Porque um vampiro almeja a cura
Nem que seja por um breve instante.
Sérgio O. Marques
Provindo d'alguma catacumba escondida.
Sente o odor de cada urna,
Escaninho d'algo demente.
E essa dor é seu modo de vida.
-Danço lúgrube a valsa nocturna
Com lânguidos passos sob a luz da lua.
Sinto o cheiro do pavor e do medo
De quem me teme em me desconhecer.
Impregna-se este ódio frio em meu ser
Que me gela mórbido desde cedo.
Cresce-me, então, este sórdido desejo
Em lhes sorver o calor que os aquece,
Sacio-me do sangue com delicado beijo
Que me afaga e se me não esquece.
Mas é efémero esse raio de luz
E de novo s'abate a perdição,
Essa fome e essa sede que me seduz.
Deambulo só e há muito na escuridão.
Agora só me fere o rutilar do dia
E nada mais pode haver que m'alumie.
Vejo-o desta janela d'onde durmo
A bailar solitário hediondo
Deslizando suave sobre um ar soturno.
O luar resplandece e me escondo
Do seu olhar terrífico de petrificar.
Ele sabe que o observo e m'amedronta
Na esperança que adormeça para me matar.
Devo suprimi-lo antes que me encontre.
Apenas penso no que me fará, se me vir
No que me terá reservado se m'agarrar:
Beber-me o corpo, a carne haurir.
Espero impaciente o nascer da manhã
Portadora do majestoso sol matinal,
Portentoso desterro dos filhos do mal.
Amanhã estarei preparado. Amanhã!
Quem calcorreia os caminhos de dia
Olvida o silêncio da noite e a companhia
Da lua. Amar é a forma do ser mais pura,
Seja ao sol do dia, como à noite errante.
Sim! Porque um vampiro almeja a cura
Nem que seja por um breve instante.
Sérgio O. Marques
quarta-feira, 8 de outubro de 2008
Amores de agora
Estes amores que se engalham
Em direitos de sequelas
São cartas que se embaralham
Num baralho cheio delas.
Uns tocam-se outros se beijam
Em abraços de namoro oco
Entre amantes que são e deixam.
Tais paixões sabem a pouco.
Alguns se mostram jactantes
Com conquistas de amores perdidos.
Dão-se voltas mirabolantes:
Acabam-se sempre traídos.
Gabam-se, entre si, cada qual,
Coitarem-se como animais que são.
Não traz nada de fenomenal,
Nisso era mui bom meu cão.
Sérgio O. Marques
Em direitos de sequelas
São cartas que se embaralham
Num baralho cheio delas.
Uns tocam-se outros se beijam
Em abraços de namoro oco
Entre amantes que são e deixam.
Tais paixões sabem a pouco.
Alguns se mostram jactantes
Com conquistas de amores perdidos.
Dão-se voltas mirabolantes:
Acabam-se sempre traídos.
Gabam-se, entre si, cada qual,
Coitarem-se como animais que são.
Não traz nada de fenomenal,
Nisso era mui bom meu cão.
Sérgio O. Marques
sábado, 4 de outubro de 2008
Motor do mundo moderno
Motores e redutores
São ferros enlaçados,
Entre odores entrelaçados
Com transformadores
E cheiro lúbrico quente
Propulsando guindastes,
Martelos-pilões sobre bigornas,
Prensas, tornos dando tornas
(Produtos inúteis e trastes)
Num movimento demente
De cabos em cadernais,
Rodas dentadas frenéticas
De cremalheiras e muito mais,
Até coisas pouco éticas.
Máquinas e vapores
Aceleram a marcha social
De sabores e dissabores,
Auto-estradas sem nexo
Para mover capital:
Merdas que, lá bem no fundo,
Só servem para fazer sexo
No outro lado do mundo.
Cremes e unguentos
Escorrem o corpo de mel
E químicos pestilentos
Para esconder o sol da pele,
E dar cor à palidez,
Cor bronze de metal.
São motores mais uma vez
De sexo e capital.
Acabamos a comer chapa,
Papel de notas em maço:
Alimento, falsa capa,
Motor do fracasso.
É mercado financeiro
Dinheiro a trazer dinheiro atrás,
Sem riqueza fazer dinheiro,
Faz dinheiro que nada faz
Motor do mundo disnexo
Que cura males numa farmácia
E comunica com audácia.
Move tudo e compra sexo.
Sérgio O. Marques
São ferros enlaçados,
Entre odores entrelaçados
Com transformadores
E cheiro lúbrico quente
Propulsando guindastes,
Martelos-pilões sobre bigornas,
Prensas, tornos dando tornas
(Produtos inúteis e trastes)
Num movimento demente
De cabos em cadernais,
Rodas dentadas frenéticas
De cremalheiras e muito mais,
Até coisas pouco éticas.
Máquinas e vapores
Aceleram a marcha social
De sabores e dissabores,
Auto-estradas sem nexo
Para mover capital:
Merdas que, lá bem no fundo,
Só servem para fazer sexo
No outro lado do mundo.
Cremes e unguentos
Escorrem o corpo de mel
E químicos pestilentos
Para esconder o sol da pele,
E dar cor à palidez,
Cor bronze de metal.
São motores mais uma vez
De sexo e capital.
Acabamos a comer chapa,
Papel de notas em maço:
Alimento, falsa capa,
Motor do fracasso.
É mercado financeiro
Dinheiro a trazer dinheiro atrás,
Sem riqueza fazer dinheiro,
Faz dinheiro que nada faz
Motor do mundo disnexo
Que cura males numa farmácia
E comunica com audácia.
Move tudo e compra sexo.
Sérgio O. Marques
terça-feira, 23 de setembro de 2008
Adivinhação
Num futuro muito distante
Cessar-se-ão estações em diante.
Regelar-se-ão as águas ao amanhecer.
Ferver-se-á a terra ao entardecer.
Aparecerá a lua enquanto o sol alumia.
Então, será dia depois de anoitecer
E se fará noite quando for dia.
Cessar-se-ão estações em diante.
Regelar-se-ão as águas ao amanhecer.
Ferver-se-á a terra ao entardecer.
Aparecerá a lua enquanto o sol alumia.
Então, será dia depois de anoitecer
E se fará noite quando for dia.
quinta-feira, 21 de agosto de 2008
Preconceito
Proconceito é ritual
Que já de si não sabe
O significado original.
Sem cabimento, não cabe.
Preconceito é o medo autista
De abrir a janela
E ver a rua, de tão bela,
A estrebuchar à vista.
Preconceito é preceito
Para a cegueira da alma,
Moldar fúria em branda calma
E acusar o justo, punhal no peito.
O preconceito é a dor
De ver o ódio onde não está
E onde, tão bem, ele há
De tão mal, não vê amor.
O preconceito mede sem unidade,
Pesa sem instrumento,
Dá por engano a verdade,
É engodo ao pensamento.
Preconceito é tristeza
Onde devia haver alegria
Pois tem a noite em certeza
No sol alto ao meio-dia.
O preconceito fala
Porque ouviu dizer,
É a voz de quem se cala
E ainda assim é maldizer.
O preconceito não é jeito,
É falta dele, não se ajeita.
O preconceito não é direito,
Nem de direito, não se endireita.
O preconceito é inimigo da liberdade,
Deixa nem vivalma ileso.
Quem se lhe prende com acuidade
Não é livre, vive preso.
Sérgio O. Marques
Que já de si não sabe
O significado original.
Sem cabimento, não cabe.
Preconceito é o medo autista
De abrir a janela
E ver a rua, de tão bela,
A estrebuchar à vista.
Preconceito é preceito
Para a cegueira da alma,
Moldar fúria em branda calma
E acusar o justo, punhal no peito.
O preconceito é a dor
De ver o ódio onde não está
E onde, tão bem, ele há
De tão mal, não vê amor.
O preconceito mede sem unidade,
Pesa sem instrumento,
Dá por engano a verdade,
É engodo ao pensamento.
Preconceito é tristeza
Onde devia haver alegria
Pois tem a noite em certeza
No sol alto ao meio-dia.
O preconceito fala
Porque ouviu dizer,
É a voz de quem se cala
E ainda assim é maldizer.
O preconceito não é jeito,
É falta dele, não se ajeita.
O preconceito não é direito,
Nem de direito, não se endireita.
O preconceito é inimigo da liberdade,
Deixa nem vivalma ileso.
Quem se lhe prende com acuidade
Não é livre, vive preso.
Sérgio O. Marques
sexta-feira, 15 de agosto de 2008
Cumprimento onomatopaico
Pirilim pirilam
Catrapum coridom
Fratilin anam
Grutilun fanom
Ricaturil amnião
Olá a todos, como estão!
Rircalor formidur
Portiduram ariur
aficul srilália
gtutmian ohjília
preribum curiém
Como estão? Estão bem?
Sérgio O. Marques
Catrapum coridom
Fratilin anam
Grutilun fanom
Ricaturil amnião
Olá a todos, como estão!
Rircalor formidur
Portiduram ariur
aficul srilália
gtutmian ohjília
preribum curiém
Como estão? Estão bem?
Sérgio O. Marques
quarta-feira, 6 de agosto de 2008
Os detectives
Bom dia senhor boi, como vai!
Diz o burro - como tem pastado?
Aqui, nestes belos prados...
Responde - muito bem, muito obrigado.
Como vai o senhor burro, enquanto sai
Assim todo empavonado
Que nos deixa admirados?
Vou bem, senhor boi, vou bem,
Bem melhor do que ninguém.
Pois, senhor burro, bem tem ruminado,
Estou a ver... Por isso passa a sorrir.
Nada disso, senhor boi. Mas pela preocupação...
Obrigado! É mais para onde estou a ir
(Sorriso matreiro), com muita satisfação.
Num repente, chega o porco esbaforido
Com um traje colorido
A gritar como um demente,
Mas com ares de descontente:
Roubaram a estátua da praça
Mesmo à frente de toda a gente.
Olha que crime sem graça,
Intrigado, murmura o boi.
Diz o porco: ninguém sabe como foi.
Eu e o boi descobrimos - continua o burro
Ou não seja eu casmurro.
De quando trabalharam juntos, não já memória
Mas juntos descobriram - Fora o ourives!
Mas isso já é outra história,
Uma história muito engraçada.
Afinal... São os melhores detectives
Do reino da bicharada.
Sérgio O. Marques
Diz o burro - como tem pastado?
Aqui, nestes belos prados...
Responde - muito bem, muito obrigado.
Como vai o senhor burro, enquanto sai
Assim todo empavonado
Que nos deixa admirados?
Vou bem, senhor boi, vou bem,
Bem melhor do que ninguém.
Pois, senhor burro, bem tem ruminado,
Estou a ver... Por isso passa a sorrir.
Nada disso, senhor boi. Mas pela preocupação...
Obrigado! É mais para onde estou a ir
(Sorriso matreiro), com muita satisfação.
Num repente, chega o porco esbaforido
Com um traje colorido
A gritar como um demente,
Mas com ares de descontente:
Roubaram a estátua da praça
Mesmo à frente de toda a gente.
Olha que crime sem graça,
Intrigado, murmura o boi.
Diz o porco: ninguém sabe como foi.
Eu e o boi descobrimos - continua o burro
Ou não seja eu casmurro.
De quando trabalharam juntos, não já memória
Mas juntos descobriram - Fora o ourives!
Mas isso já é outra história,
Uma história muito engraçada.
Afinal... São os melhores detectives
Do reino da bicharada.
Sérgio O. Marques
segunda-feira, 28 de julho de 2008
Perguntei
Perguntei a uma árvore verdejante
Onde frutos ia colher,
O que a vida tem para dar,
O que tem para oferecer.
Disse-me com jeito elegante:
Pergunta ao rio a passar
Onde me encosto a beber.
Perguntei ao rio
Que percorre tantas terras,
Porque é o viver fugidio
Arrimado em vãs quimeras.
Disse-me então a sorrir:
Pergunta ao mar, meu amigo
Pois para ele estou a ir.
Perguntei ao mar
Sereno e bravio
Qual seria o meu lugar
Neste mundo baldio.
Disse-me hesitante:
Pergunta ao luar
Que alumia a noite errante
Com seu brilho luzidio.
Perguntei ao luar
Com luz que me alimenta,
O que iria ser de mim.
Disse-me sem pestanejar:
Pergunta ao sol que me acalenta
E me faz brilhar assim.
Perguntei ao sol brilhante
Cujo brilho faz o dia
Porque sinto eu tristeza
E também tenho alegria.
Disse-me com firmeza:
Pergunta a uma galáxia distante
Com velha sabedoria.
Perguntei à nebulosa
Que de estrelas já foi mãe,
Porque a vida é tão penosa,
Causa sofrimento intenso.
Disse-me ela, graciosa:
Pergunta ao Universo imenso
Que nos fez e que nos tem.
Pergutei ao Universo
Onde existo, onde sou,
De onde venho, para onde vou
E que faço eu aqui.
Segreda-me um tanto disperso,
Com murmúrio de embalar:
A resposta que te dou
Sempre esteve dentro de ti
E aí sempre há-de estar.
Sérgio O. Marques
Onde frutos ia colher,
O que a vida tem para dar,
O que tem para oferecer.
Disse-me com jeito elegante:
Pergunta ao rio a passar
Onde me encosto a beber.
Perguntei ao rio
Que percorre tantas terras,
Porque é o viver fugidio
Arrimado em vãs quimeras.
Disse-me então a sorrir:
Pergunta ao mar, meu amigo
Pois para ele estou a ir.
Perguntei ao mar
Sereno e bravio
Qual seria o meu lugar
Neste mundo baldio.
Disse-me hesitante:
Pergunta ao luar
Que alumia a noite errante
Com seu brilho luzidio.
Perguntei ao luar
Com luz que me alimenta,
O que iria ser de mim.
Disse-me sem pestanejar:
Pergunta ao sol que me acalenta
E me faz brilhar assim.
Perguntei ao sol brilhante
Cujo brilho faz o dia
Porque sinto eu tristeza
E também tenho alegria.
Disse-me com firmeza:
Pergunta a uma galáxia distante
Com velha sabedoria.
Perguntei à nebulosa
Que de estrelas já foi mãe,
Porque a vida é tão penosa,
Causa sofrimento intenso.
Disse-me ela, graciosa:
Pergunta ao Universo imenso
Que nos fez e que nos tem.
Pergutei ao Universo
Onde existo, onde sou,
De onde venho, para onde vou
E que faço eu aqui.
Segreda-me um tanto disperso,
Com murmúrio de embalar:
A resposta que te dou
Sempre esteve dentro de ti
E aí sempre há-de estar.
Sérgio O. Marques
segunda-feira, 21 de julho de 2008
Nascer do dia
Cheiro a maresia
D'oiro e fina prata.
Marulham ao nascer o dia
Belos cabelos e uma fita escarlata.
São não sei bem de quem.
Dá-me um cumprimento matinal,
Aquele efémero beijo jovial
Da manhã que vem
E nasce a pipilar com tamanha euforia.
A faina fervilha de novo
E o milho assoalhado no chão
Canta com ostentação
Orgulhos da lide de um povo.
A rua sorri com alegria
Aos carros, carroças e carregos,
Aos animais do campo,
Aos burros e aos borregos,
Aos bois que vão passando
E deixam para trás
Verdes fieiras de pasto.
Um pregão loquaz
Dum vozeirão já gasto
Apregoa a cantar:
Quem quer carapau do nosso mar,
Sardinha vivinha a saltar.
Ó freguesa venha ver
O que tenho p'ra vender.
Di-lo muito a preceito
E nós seguimos a correr
A arremedar-lhe ingénuo jeito.
Sérgio O. Marques
D'oiro e fina prata.
Marulham ao nascer o dia
Belos cabelos e uma fita escarlata.
São não sei bem de quem.
Dá-me um cumprimento matinal,
Aquele efémero beijo jovial
Da manhã que vem
E nasce a pipilar com tamanha euforia.
A faina fervilha de novo
E o milho assoalhado no chão
Canta com ostentação
Orgulhos da lide de um povo.
A rua sorri com alegria
Aos carros, carroças e carregos,
Aos animais do campo,
Aos burros e aos borregos,
Aos bois que vão passando
E deixam para trás
Verdes fieiras de pasto.
Um pregão loquaz
Dum vozeirão já gasto
Apregoa a cantar:
Quem quer carapau do nosso mar,
Sardinha vivinha a saltar.
Ó freguesa venha ver
O que tenho p'ra vender.
Di-lo muito a preceito
E nós seguimos a correr
A arremedar-lhe ingénuo jeito.
Sérgio O. Marques
sexta-feira, 11 de julho de 2008
Espera o destino
Quando já nada te move
E a vida não te sorri,
Crê que o destino pode
Ter primo desígnio para ti.
Vê-lhe as mensagens, cada sinal,
Um cão que aos teus pés se aninha
E te torna assim especial,
Seres alguém que acarinha;
Aquela velhinha esquecida
Que de ti se lembra com saudade,
E foi sorriso na tua vida,
Foi-te alegria em terna idade;
A criança que te observa atentamente
E nem sabes o que quer,
Mas se ri candidamente
Num contágio de entorpecer;
O fim que te foi poupado
E te salvou, mão protectora
Como égide que te serviu de amparo
Pois não seria essa a tua hora;
Quiçá vivas para ajudar,
Trazer abrigo a um indigente,
Quiçá estejas para acompanhar
Aquela velha que te fez contente.
Quiçá seja a tua sina
Um gesto simples de embalar
Em berço de ébano uma menina
Que venha o mundo encantar.
Quem sabe, serás grande
Ou apenas feliz, estares em paz.
Tem esperança, sê preserverante,
Aceita o que o porvir te traz.
Sérgio O. Marques
E a vida não te sorri,
Crê que o destino pode
Ter primo desígnio para ti.
Vê-lhe as mensagens, cada sinal,
Um cão que aos teus pés se aninha
E te torna assim especial,
Seres alguém que acarinha;
Aquela velhinha esquecida
Que de ti se lembra com saudade,
E foi sorriso na tua vida,
Foi-te alegria em terna idade;
A criança que te observa atentamente
E nem sabes o que quer,
Mas se ri candidamente
Num contágio de entorpecer;
O fim que te foi poupado
E te salvou, mão protectora
Como égide que te serviu de amparo
Pois não seria essa a tua hora;
Quiçá vivas para ajudar,
Trazer abrigo a um indigente,
Quiçá estejas para acompanhar
Aquela velha que te fez contente.
Quiçá seja a tua sina
Um gesto simples de embalar
Em berço de ébano uma menina
Que venha o mundo encantar.
Quem sabe, serás grande
Ou apenas feliz, estares em paz.
Tem esperança, sê preserverante,
Aceita o que o porvir te traz.
Sérgio O. Marques
quarta-feira, 2 de julho de 2008
Piratas
Grito desesperado
A pedir a morte
Ecoa os sete mares.
Ronca o corsário irado
Injúrias à sorte
Do irmão decapitado.
-Vingança, vingança,
Clamam sombrios olhares.
Que se abata a matança
Daqueles cuja mão
Teceu as malhas da lei.
Morte aos nobres, morte ao rei.
Rasgava-se em pálida tez
A fúria que a tornava alva,
Aviltante coração
A adivinhar a nudez
Do vazio da alma
De quem quis ser pirata.
A lei só pune salteadores,
Só castiga quem mata.
Decapitam-se portadores,
Mensageiros da mortandade.
Corsários, apoiados por desonrosos
Governos, por impérios por formar,
São hoje heróis decorosos
Nas histórias de embalar.
Quem saberá ou poderá dizer
Que sejam, de agora, os monstros
A protagonizar os contos
Do futuro que há-de ser?
Sérgio O. Marques
A pedir a morte
Ecoa os sete mares.
Ronca o corsário irado
Injúrias à sorte
Do irmão decapitado.
-Vingança, vingança,
Clamam sombrios olhares.
Que se abata a matança
Daqueles cuja mão
Teceu as malhas da lei.
Morte aos nobres, morte ao rei.
Rasgava-se em pálida tez
A fúria que a tornava alva,
Aviltante coração
A adivinhar a nudez
Do vazio da alma
De quem quis ser pirata.
A lei só pune salteadores,
Só castiga quem mata.
Decapitam-se portadores,
Mensageiros da mortandade.
Corsários, apoiados por desonrosos
Governos, por impérios por formar,
São hoje heróis decorosos
Nas histórias de embalar.
Quem saberá ou poderá dizer
Que sejam, de agora, os monstros
A protagonizar os contos
Do futuro que há-de ser?
Sérgio O. Marques
domingo, 29 de junho de 2008
Fado
Amália tinha uma porca
Chamada Camélia.
Sempre que a porca ia,
Toda a gente dizia:
Lá vai Camélia,
A porca da Amália.
Amália tinha uma cadela
Chamada Cândida.
Sempre que cadela ia,
Toda a gente dizia:
Lá vai Cândida,
A cadela da Amália.
Amálida tinha uma mula
Chamada Fermosa.
Sempre que a mula ia,
Toda a gente dizia:
Lá vai Fermosa,
A mula da Amália.
Amália tinha uma pata
Com uma trela.
Sempre que a pata ia,
Toda a gente dizia:
Lá vai a Amália
Com a trela na pata.
Quando a Amália cantou
A porca grunhiu,
A cadela ladrou,
A mula relinchou,
A pata cacarejou
Lá Lá Lá
Ronc ronc ronc
Ão ão ão
Ió ió ió
Qua qua qua
Mas que concerto afinado,
Quão lindo, era fado.
Uau! Fado era,
Era o fado da Severa.
Sérgio O. Marques
Chamada Camélia.
Sempre que a porca ia,
Toda a gente dizia:
Lá vai Camélia,
A porca da Amália.
Amália tinha uma cadela
Chamada Cândida.
Sempre que cadela ia,
Toda a gente dizia:
Lá vai Cândida,
A cadela da Amália.
Amálida tinha uma mula
Chamada Fermosa.
Sempre que a mula ia,
Toda a gente dizia:
Lá vai Fermosa,
A mula da Amália.
Amália tinha uma pata
Com uma trela.
Sempre que a pata ia,
Toda a gente dizia:
Lá vai a Amália
Com a trela na pata.
Quando a Amália cantou
A porca grunhiu,
A cadela ladrou,
A mula relinchou,
A pata cacarejou
Lá Lá Lá
Ronc ronc ronc
Ão ão ão
Ió ió ió
Qua qua qua
Mas que concerto afinado,
Quão lindo, era fado.
Uau! Fado era,
Era o fado da Severa.
Sérgio O. Marques
sexta-feira, 27 de junho de 2008
Passa
Passa brando aceno jovial
Cortês. Singelo passa
E quando passa, abraça
Sorrisos de um amor cabal.
Quem quer que passe o ama
O asceta que se faz crer
Cândido que a alma inflama.
Mais puro não podia ser!
Olho, vejo-lhe o veneno.
Olha-me! Sabe que o temo.
Só eu lhe vejo o mal ruim
Mas sou louco por ser assim.
Sérgio O. Marques
Cortês. Singelo passa
E quando passa, abraça
Sorrisos de um amor cabal.
Quem quer que passe o ama
O asceta que se faz crer
Cândido que a alma inflama.
Mais puro não podia ser!
Olho, vejo-lhe o veneno.
Olha-me! Sabe que o temo.
Só eu lhe vejo o mal ruim
Mas sou louco por ser assim.
Sérgio O. Marques
terça-feira, 24 de junho de 2008
Astros
Olho o céu e miro, fascinado
Os astros no seu movimento perpétuo
Ao sabor das equações seculares.
Não sei se são mestres do fado,
Se nos sabem o destino incerto
Ou se fluem espectaculares
Numa harmonia celestial,
Sabedores de física-matemática.
Sinto, no sangue, tamanha extática,
A sua maravilha que me ferve,
A sua inteligência fenomenal
Que me inflama todo por dentro:
-Eles que nos mostraram o tempo,
Nos ensinaram as estações,
Cujo exímio bailado nos serve
De guia, nos vela à noitinha,
Nos orienta e nos adivinha.
No seu seio borbulha a alquimia,
Toda a química que nos faz matéria,
Que nos forma o corpo e carne,
Material invólucro de sensações.
E tudo isso é estonteante magia,
Pois, para nós foram criados,
Para, por nós, serem vislumbrados
Depois do pôr do sol de cada dia.
Sérgio O. Marques
Os astros no seu movimento perpétuo
Ao sabor das equações seculares.
Não sei se são mestres do fado,
Se nos sabem o destino incerto
Ou se fluem espectaculares
Numa harmonia celestial,
Sabedores de física-matemática.
Sinto, no sangue, tamanha extática,
A sua maravilha que me ferve,
A sua inteligência fenomenal
Que me inflama todo por dentro:
-Eles que nos mostraram o tempo,
Nos ensinaram as estações,
Cujo exímio bailado nos serve
De guia, nos vela à noitinha,
Nos orienta e nos adivinha.
No seu seio borbulha a alquimia,
Toda a química que nos faz matéria,
Que nos forma o corpo e carne,
Material invólucro de sensações.
E tudo isso é estonteante magia,
Pois, para nós foram criados,
Para, por nós, serem vislumbrados
Depois do pôr do sol de cada dia.
Sérgio O. Marques
terça-feira, 3 de junho de 2008
Ovar
Ovar,
Não oval
Tem mar
Cheira mal,
Não a mel
Nem a mil
Rosas do rosal:
Gente mole,
De tão vil
Sem brio,
Nada vale.
Terriola de Portugal
Sem outra com nome igual:
Ovar.
Na ria
O rio
Desemboca
A porcaria
Por um fio
Que se fia
Em água pura
Que não pára
A amargura.
É à medida do país,
Coisa infeliz.
Sérgio o. Marques
Não oval
Tem mar
Cheira mal,
Não a mel
Nem a mil
Rosas do rosal:
Gente mole,
De tão vil
Sem brio,
Nada vale.
Terriola de Portugal
Sem outra com nome igual:
Ovar.
Na ria
O rio
Desemboca
A porcaria
Por um fio
Que se fia
Em água pura
Que não pára
A amargura.
É à medida do país,
Coisa infeliz.
Sérgio o. Marques
sábado, 31 de maio de 2008
Ó Portugal
Ó Portugal, tu que tanto choras
O há muito que quem não te faz, o povo
Valeroso de outras épocas, outras horas.
Ó Portugal, parar, não te faz mais novo.
Vira-te para diante que o passado era,
Foi aquilo que não volta a ser, a quimera
Do que foi esquecido ou já nem é lembrado.
Canta um alegre destino, não um triste fado.
Abre os braços da beleza à primazia
Do teu valor infindo, aconchegando
No teu regaço, o cristal do bom auguro.
Ouve o silente brado desta gente, aqui
Clamando por um majestoso futuro,
Por alguém que te governe, a pensar em ti.
Sérgio O. Marques
O há muito que quem não te faz, o povo
Valeroso de outras épocas, outras horas.
Ó Portugal, parar, não te faz mais novo.
Vira-te para diante que o passado era,
Foi aquilo que não volta a ser, a quimera
Do que foi esquecido ou já nem é lembrado.
Canta um alegre destino, não um triste fado.
Abre os braços da beleza à primazia
Do teu valor infindo, aconchegando
No teu regaço, o cristal do bom auguro.
Ouve o silente brado desta gente, aqui
Clamando por um majestoso futuro,
Por alguém que te governe, a pensar em ti.
Sérgio O. Marques
sábado, 24 de maio de 2008
Estrada da vida
Caminho por esta estrada
Solitária. Só as pedras
Me acompanham os pesados passos
Num desdouro de nada.
O que lá vem, ora são quimeras
Ora erros crassos,
Mais nada de interessante.
Quem por mim passa, ri.
Ri como um infante
Tão contente de si.
Não sabem que choro por dentro
Mas mesmo assim ririam,
É o comburente do seu alento.
As pedras caladas
Dizem-me o que quero ouvir,
O estar calado.
Se andassem, não me pisariam,
Desvairadas
Caminhariam ao meu lado.
Só eu as piso e não queria,
Não o posso evitar.
Mas não as calcaria,
Sentar-me-ia a conversar,
A meditar em nada,
A desdizer o que ficaria.
Tenho de continuar.
As árvores abraçam esta estrada
Com flores e frutos ao fim.
Além a felicidade
Espera por mim,
É verdade.
Solitária. Só as pedras
Me acompanham os pesados passos
Num desdouro de nada.
O que lá vem, ora são quimeras
Ora erros crassos,
Mais nada de interessante.
Quem por mim passa, ri.
Ri como um infante
Tão contente de si.
Não sabem que choro por dentro
Mas mesmo assim ririam,
É o comburente do seu alento.
As pedras caladas
Dizem-me o que quero ouvir,
O estar calado.
Se andassem, não me pisariam,
Desvairadas
Caminhariam ao meu lado.
Só eu as piso e não queria,
Não o posso evitar.
Mas não as calcaria,
Sentar-me-ia a conversar,
A meditar em nada,
A desdizer o que ficaria.
Tenho de continuar.
As árvores abraçam esta estrada
Com flores e frutos ao fim.
Além a felicidade
Espera por mim,
É verdade.
quinta-feira, 22 de maio de 2008
Medo de viver
O medo é da carne a fraqueza,
A sua única doença, vil sazão.
A morte, da vida é natureza,
Não o seu mal ou perdição.
Acreditar, do espírito, a pureza,
Na alma que de vida o corpo alenta,
No amor, a Palavra que é o pão
Ânimo de liberdade, acalenta.
Sorvamos essa carne, esse sangue são
Sem recear morte que nos faz temer
Dissipemos o medo de viver.
Sérgio O. Marques
A sua única doença, vil sazão.
A morte, da vida é natureza,
Não o seu mal ou perdição.
Acreditar, do espírito, a pureza,
Na alma que de vida o corpo alenta,
No amor, a Palavra que é o pão
Ânimo de liberdade, acalenta.
Sorvamos essa carne, esse sangue são
Sem recear morte que nos faz temer
Dissipemos o medo de viver.
Sérgio O. Marques
quarta-feira, 21 de maio de 2008
Cinco elementos
Os cinco elementos naturais
Em cada esfera reinam,
Reinos celestiais.
Cinco elementos unos habitam
As céleres esferas,
A água, o fogo, o ar,
A terra, o éter todos um só,
Uma pedra filosofal
A mover-se, qual mó,
Em correntes etéras.
Transforma um em cada qual
E cada qual em cada um de si
Metamorfoseando-se no bem
Depurando o mal,
Muta o chumbo em auri
Ouro brilhando no firmamento
Deste universo imenso,
Ao som do movimento das esferas.
Sérgio O. Marques
Em cada esfera reinam,
Reinos celestiais.
Cinco elementos unos habitam
As céleres esferas,
A água, o fogo, o ar,
A terra, o éter todos um só,
Uma pedra filosofal
A mover-se, qual mó,
Em correntes etéras.
Transforma um em cada qual
E cada qual em cada um de si
Metamorfoseando-se no bem
Depurando o mal,
Muta o chumbo em auri
Ouro brilhando no firmamento
Deste universo imenso,
Ao som do movimento das esferas.
Sérgio O. Marques
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