Escuta cada gemido cotundente
Provindo d'alguma catacumba escondida.
Sente o odor de cada urna,
Escaninho d'algo demente.
E essa dor é seu modo de vida.
-Danço lúgrube a valsa nocturna
Com lânguidos passos sob a luz da lua.
Sinto o cheiro do pavor e do medo
De quem me teme em me desconhecer.
Impregna-se este ódio frio em meu ser
Que me gela mórbido desde cedo.
Cresce-me, então, este sórdido desejo
Em lhes sorver o calor que os aquece,
Sacio-me do sangue com delicado beijo
Que me afaga e se me não esquece.
Mas é efémero esse raio de luz
E de novo s'abate a perdição,
Essa fome e essa sede que me seduz.
Deambulo só e há muito na escuridão.
Agora só me fere o rutilar do dia
E nada mais pode haver que m'alumie.
Vejo-o desta janela d'onde durmo
A bailar solitário hediondo
Deslizando suave sobre um ar soturno.
O luar resplandece e me escondo
Do seu olhar terrífico de petrificar.
Ele sabe que o observo e m'amedronta
Na esperança que adormeça para me matar.
Devo suprimi-lo antes que me encontre.
Apenas penso no que me fará, se me vir
No que me terá reservado se m'agarrar:
Beber-me o corpo, a carne haurir.
Espero impaciente o nascer da manhã
Portadora do majestoso sol matinal,
Portentoso desterro dos filhos do mal.
Amanhã estarei preparado. Amanhã!
Quem calcorreia os caminhos de dia
Olvida o silêncio da noite e a companhia
Da lua. Amar é a forma do ser mais pura,
Seja ao sol do dia, como à noite errante.
Sim! Porque um vampiro almeja a cura
Nem que seja por um breve instante.
Sérgio O. Marques
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sexta-feira, 7 de novembro de 2008
quarta-feira, 2 de julho de 2008
Piratas
Grito desesperado
A pedir a morte
Ecoa os sete mares.
Ronca o corsário irado
Injúrias à sorte
Do irmão decapitado.
-Vingança, vingança,
Clamam sombrios olhares.
Que se abata a matança
Daqueles cuja mão
Teceu as malhas da lei.
Morte aos nobres, morte ao rei.
Rasgava-se em pálida tez
A fúria que a tornava alva,
Aviltante coração
A adivinhar a nudez
Do vazio da alma
De quem quis ser pirata.
A lei só pune salteadores,
Só castiga quem mata.
Decapitam-se portadores,
Mensageiros da mortandade.
Corsários, apoiados por desonrosos
Governos, por impérios por formar,
São hoje heróis decorosos
Nas histórias de embalar.
Quem saberá ou poderá dizer
Que sejam, de agora, os monstros
A protagonizar os contos
Do futuro que há-de ser?
Sérgio O. Marques
A pedir a morte
Ecoa os sete mares.
Ronca o corsário irado
Injúrias à sorte
Do irmão decapitado.
-Vingança, vingança,
Clamam sombrios olhares.
Que se abata a matança
Daqueles cuja mão
Teceu as malhas da lei.
Morte aos nobres, morte ao rei.
Rasgava-se em pálida tez
A fúria que a tornava alva,
Aviltante coração
A adivinhar a nudez
Do vazio da alma
De quem quis ser pirata.
A lei só pune salteadores,
Só castiga quem mata.
Decapitam-se portadores,
Mensageiros da mortandade.
Corsários, apoiados por desonrosos
Governos, por impérios por formar,
São hoje heróis decorosos
Nas histórias de embalar.
Quem saberá ou poderá dizer
Que sejam, de agora, os monstros
A protagonizar os contos
Do futuro que há-de ser?
Sérgio O. Marques
sexta-feira, 27 de junho de 2008
Passa
Passa brando aceno jovial
Cortês. Singelo passa
E quando passa, abraça
Sorrisos de um amor cabal.
Quem quer que passe o ama
O asceta que se faz crer
Cândido que a alma inflama.
Mais puro não podia ser!
Olho, vejo-lhe o veneno.
Olha-me! Sabe que o temo.
Só eu lhe vejo o mal ruim
Mas sou louco por ser assim.
Sérgio O. Marques
Cortês. Singelo passa
E quando passa, abraça
Sorrisos de um amor cabal.
Quem quer que passe o ama
O asceta que se faz crer
Cândido que a alma inflama.
Mais puro não podia ser!
Olho, vejo-lhe o veneno.
Olha-me! Sabe que o temo.
Só eu lhe vejo o mal ruim
Mas sou louco por ser assim.
Sérgio O. Marques
segunda-feira, 16 de junho de 2008
Difícil amar
É mais fácil prosternar,
Construir a destruição
Dum afoito arruinar
Num feroz arrojo ao chão.
Difícil é ter a coragem
De, do nada, edificar
Alento e, com paixão
Voar, seguir viagem.
É mais fácil condenar
Fútil erro oco e vazio,
Vão engano, um tropeçar
Do destino gelado e frio.
Difícil é saber perdoar
Com imenso céu no coração
Um mesquinho atraiçoar
Preciso de redenção.
É mais fácil ferir,
Trazer a morte, o sofrimento,
Mutilar, fazer cair,
Causar descontentamento.
Difícil é poder salvar
Do mal a quem carece
De um abraço, é saber escutar
Duma lágrima, aflita prece.
É mais fácil odiar.
Difícil é amar.
Sérgio O. Marques
Construir a destruição
Dum afoito arruinar
Num feroz arrojo ao chão.
Difícil é ter a coragem
De, do nada, edificar
Alento e, com paixão
Voar, seguir viagem.
É mais fácil condenar
Fútil erro oco e vazio,
Vão engano, um tropeçar
Do destino gelado e frio.
Difícil é saber perdoar
Com imenso céu no coração
Um mesquinho atraiçoar
Preciso de redenção.
É mais fácil ferir,
Trazer a morte, o sofrimento,
Mutilar, fazer cair,
Causar descontentamento.
Difícil é poder salvar
Do mal a quem carece
De um abraço, é saber escutar
Duma lágrima, aflita prece.
É mais fácil odiar.
Difícil é amar.
Sérgio O. Marques
quinta-feira, 1 de maio de 2008
A censura silenciosa
A dor profusa no silêncio adormecido
Escorre ímpia numa dança mirabolante
Corpo acima. Segreda-nos ao ouvido
Vãs promessas dum amanhecer distante
Turvo num auguro oco de sentido.
Serpeia suave, delineia carícia ardil,
Engoda, engana, tolha, torna infantil
O discernimento, a certeza do se ser.
Sou surdo em a ouvir, sou cego em a ver,
Sou triste se com ela me sinto bem.
Quero de mim ser senhor, ser pensante,
Quero pensar mais alto, ir mais além,
Viver humilde num mundo honesto,
Num mundo nú, despido de proveito.
Viça-se silente a preceito,
Nas trevas cresce, aumenta lentamente.
Os seus tentáculos parasitários estende
Para nos abraçar, para nos tragar
E nos tirar a vida sem darmos conta.
É cruel tirana da escravatura,
Trazendo a democracia na boca,
Afã da penúria, amiga da amargura.
Numa mão, traz flores de maravilhar;
Na outra, um punhal para nos matar
E na terceira, um dedo que nos aponta,
Que nos acusa de sermos pobres
com pregões de valores nobres.
Aperta e cinge, vil afronta
Como é hipócrita, como é louca.
Ela, que nos conhece plenamente
Mas nada é sem nós, felizmente.
Ardilosa, faz-nos acreditar e descrer
À sua vontade, a seu bel-prazer
Moldando arbítrios sob falsa moral.
Dissimula de ciência a técnica
Sem qualquer máxima, sem qualquer ética,
Engodo apêlo, engano sentimental,
Hasteia bem alto a bandeira da salvação
Sempre que semeia o terror, a destruição.
Impinge a fome e depois sacia,
É déspota e mártir da sua própria ira
Num áspero afago com mão macia
Que nos prende a consciência,
Porque tudo o que é, é mentira.
Sérgio O. Marques
Escorre ímpia numa dança mirabolante
Corpo acima. Segreda-nos ao ouvido
Vãs promessas dum amanhecer distante
Turvo num auguro oco de sentido.
Serpeia suave, delineia carícia ardil,
Engoda, engana, tolha, torna infantil
O discernimento, a certeza do se ser.
Sou surdo em a ouvir, sou cego em a ver,
Sou triste se com ela me sinto bem.
Quero de mim ser senhor, ser pensante,
Quero pensar mais alto, ir mais além,
Viver humilde num mundo honesto,
Num mundo nú, despido de proveito.
Viça-se silente a preceito,
Nas trevas cresce, aumenta lentamente.
Os seus tentáculos parasitários estende
Para nos abraçar, para nos tragar
E nos tirar a vida sem darmos conta.
É cruel tirana da escravatura,
Trazendo a democracia na boca,
Afã da penúria, amiga da amargura.
Numa mão, traz flores de maravilhar;
Na outra, um punhal para nos matar
E na terceira, um dedo que nos aponta,
Que nos acusa de sermos pobres
com pregões de valores nobres.
Aperta e cinge, vil afronta
Como é hipócrita, como é louca.
Ela, que nos conhece plenamente
Mas nada é sem nós, felizmente.
Ardilosa, faz-nos acreditar e descrer
À sua vontade, a seu bel-prazer
Moldando arbítrios sob falsa moral.
Dissimula de ciência a técnica
Sem qualquer máxima, sem qualquer ética,
Engodo apêlo, engano sentimental,
Hasteia bem alto a bandeira da salvação
Sempre que semeia o terror, a destruição.
Impinge a fome e depois sacia,
É déspota e mártir da sua própria ira
Num áspero afago com mão macia
Que nos prende a consciência,
Porque tudo o que é, é mentira.
Sérgio O. Marques
sexta-feira, 4 de janeiro de 2008
Canto do mar
Vejo do mar a forma intensa,
Como quem vê e não pensa.
Vejo-lhe a forma, a face, a fronte
Vejo-o beijar o céu no horizonte.
Vejo-o de orgulho ostensivo
Afrontar a terra, insurgido.
Vejo-o de humildade indulgente
Lavar os pés a tanta gente.
Vejo-lhe do sol aliado
E lhe espelha a luz sobremaneira.
Vejo-lhe a lua companheira.
Na procela vira-o irado.
Agora, em vasta bonança,
Vejo-lhe a calma da esperança.
Sérgio O. Marques
Como quem vê e não pensa.
Vejo-lhe a forma, a face, a fronte
Vejo-o beijar o céu no horizonte.
Vejo-o de orgulho ostensivo
Afrontar a terra, insurgido.
Vejo-o de humildade indulgente
Lavar os pés a tanta gente.
Vejo-lhe do sol aliado
E lhe espelha a luz sobremaneira.
Vejo-lhe a lua companheira.
Na procela vira-o irado.
Agora, em vasta bonança,
Vejo-lhe a calma da esperança.
Sérgio O. Marques
quinta-feira, 27 de dezembro de 2007
O natal da esperança
Vagueio por entre a noite meditabunda
Nas recônditas ruas da memória.
Punge-me o gelo que a cada passo volvido
Me fere a face e mais me profunda
A anacrónica tristeza da minha história.
Continuo nesse inane deambular aborvido
Pelas sombras dos muros à luz da lua
Enquanto ignoro pálida esguia figura
Que me acena do outro lado da rua.
Sei que não estou sozinho, sinto-me só.
Esvoaça ao som do vento e, com brandura
Um branco manto abraça as pastagens
E acolhe em mãos, dos choupos as folhagens.
Encostada à parede queda-se a velha mó
Contando contos do tempo em tempos idos,
De pardrões e marcos há muito esquecidos
E dos escombros de monumentos erigidos.
Por cima, corisca translúcida janela
Em tragos que, com tímida claridade
Escutam da bruma a minha querela
E beijam a penumbra com suavidade.
Lá dentro rejubilam mélicos cantos
Numa cálida harmonia em voz de querubim.
Cá fora, tolhe-me o frio o árido peito
Encarcerando em meu ser mofino jeito.
São alegres porque são assim,
Penitentes mas fieis aos seus encantos.
Na lareira, púrpuras labaredas bailam
Ao som de etéreo ardor celestial
Do fogo da família no dia de natal.
Ao canto, dois gaiatos riem e brincam
Ditosos e repletos de ambição.
Dorme serena uma menina no regaço
Deleitando-se duma carícia doce como melaço.
É a candura do afago, o sorriso da criança
Que me resplandece o coração
Como o fúlgido sol quando brilha de verão.
Em anástase enlevo-me de esperança.
É esse súpero amor que me sacia
E me liberta em atroada euforia,
É esse humilde amor que me diz:
Se amares, vais ser feliz.
Sérgio O. Marques
Nas recônditas ruas da memória.
Punge-me o gelo que a cada passo volvido
Me fere a face e mais me profunda
A anacrónica tristeza da minha história.
Continuo nesse inane deambular aborvido
Pelas sombras dos muros à luz da lua
Enquanto ignoro pálida esguia figura
Que me acena do outro lado da rua.
Sei que não estou sozinho, sinto-me só.
Esvoaça ao som do vento e, com brandura
Um branco manto abraça as pastagens
E acolhe em mãos, dos choupos as folhagens.
Encostada à parede queda-se a velha mó
Contando contos do tempo em tempos idos,
De pardrões e marcos há muito esquecidos
E dos escombros de monumentos erigidos.
Por cima, corisca translúcida janela
Em tragos que, com tímida claridade
Escutam da bruma a minha querela
E beijam a penumbra com suavidade.
Lá dentro rejubilam mélicos cantos
Numa cálida harmonia em voz de querubim.
Cá fora, tolhe-me o frio o árido peito
Encarcerando em meu ser mofino jeito.
São alegres porque são assim,
Penitentes mas fieis aos seus encantos.
Na lareira, púrpuras labaredas bailam
Ao som de etéreo ardor celestial
Do fogo da família no dia de natal.
Ao canto, dois gaiatos riem e brincam
Ditosos e repletos de ambição.
Dorme serena uma menina no regaço
Deleitando-se duma carícia doce como melaço.
É a candura do afago, o sorriso da criança
Que me resplandece o coração
Como o fúlgido sol quando brilha de verão.
Em anástase enlevo-me de esperança.
É esse súpero amor que me sacia
E me liberta em atroada euforia,
É esse humilde amor que me diz:
Se amares, vais ser feliz.
Sérgio O. Marques
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