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quinta-feira, 13 de março de 2008

A vida da gente

Tanta gente que acorda
E outra tanta que adormece
Nas muitas horas de cada dia.
Tanta gente que se encontra
E se volta a encontrar
Em cômpitos sem conta revezados
Para chorarem sozinhos
Para se puderem rir juntos.
Não há física para tudo isto.

E aquela outra que se apeia
À porta de muitas casas
Que são de cada qual
E falam de tanta coisa inútil
Numa velha aldeia
Onde toda ela é família.
E não há química para isto
Nem sequer biologia
Ou até mesmo filosofia.

E aqueles que caminham
Sem rei nem roque
Para chegarem onde são felizes
Acabando onde tantos outros acabam:
A dormir no leito todas as noites.
Não sabem a razão de ser
E pensam nisso enquanto olham
Com afinco as muitas janelas fechadas.
Porque não há lógica num mundo lógico.

E todos aqueles que dão as mãos
E se passeiam por citadinos jardins
E se alienam de tatos outros
Que passam e nem se interessam
Ou censuram sem querer saber.
São aqueles que se beijam
Apenas por sentir como outros tantos
Aquilo que todos acham belo.
Porque não há ciência num mundo sem sentimento.

Tanta gente que se senta
Nas bermas das muitas estradas
Por onde vê passar outra tanta
Que vai trilhando as sendas do dia-a-dia
E visitando terras mundo fora.
Sentam-se e sorriem sem razão
A quem acenam sem os conhecer,
Sem lhe saborear o significado inteligente.
Porque não há razão num mundo com sentido.

E aqueles muitos solitários
Que vêem todos os outros
Como pensam que eles são.
Conhecem a vida daquilo que são
E não querem mais do que têm.
São aqueles que carecem de um abraço
E de uma palavra amiga
Nem que seja de um apenas.
Porque não há cor na vida sem isto tudo.

Tudo isto é vida:
Não tem que ser descritível.
Não tem que ser inteligível.
Não tem que ser significante.
Não tem que ser explicável.
Não tem que ser lógica.
Não tem que ser racional.
A vida é o que é
E para o ser, é suficiente.

Sérgio O. Marques

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

O fado da estrada

Saía de casa airoso e cantante
Com casaco vistoso numa cor gritante
O homem que para a morte corria
E nem sequer se apercebia.

Um sorriso se lhe rasgava na boca
Lembrando um menino matreiro.
De leve gesto, venerava com praza
De mansinho, quem passava no passeio.

Foi a injúria da sorte pouca
Que lhe trouxe sombrio fado.
Tivesse ele... ficado em casa!

Pois pereceu num sinistrado.
O homem para a morte correu
E nem sequer se apercebeu.

Sérgio O. Marques

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Lá ao longe

Lá longe naquela ponte
Vejo-me no passado da meninice,
Nos límpidos murmúrios da sandice.

Mais além naquela casa arruinada,
Esconde a sarça rupestre, de ser indolente
Um sorriso agreste numa boca incocente.

Ainda mais além naquela árvore
Ouço a cor do rouxinol e duma flor a fragrância
A pintar de arrebol a face da minha infância.

Muito mais além disto tudo
Para lá do horizonte, para lá do tempo
Sinto a deidade da fonte, sinto a luz do nascimento.

Sou ser pensante, aspirante a ser feliz.
Vós, entes da natureza, nesta margem meditai
Pois o rio que aqui passa é o rio que para lá vai.

Quero virar-me para trás
Para poder andar para a frente
Cantar de contente a sorte duma coisa que é sabida,
Não a certeza da morte, mas a beleza da vida.

Sérgio O. Marques

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Recanto ao rio

Já não és o rio que eras,
O garrido menino que corria.
Padeces inquieto na melancolia
Que te afligem duras quimeras.

Como um indigente na amargura
Que sofre num silêncio fechado
Sonhas em te libertar do pesado
Fardo do martírio da usura.

Foi essa ganância inclemente
Que se atreveu em te eivar.
Tu que lavas tanta gente,
Quem te vem a ti lavar?

Nesta arbórea margem definho
Com a angústia de um amigo.
E para não chorares sozinho
Choro sozinho contigo.

Mesmo sem beleza que se goste,
Que se cante em tom loquaz,
Para mim sempre serás
O rio que sempre foste.

Sérgio O. Marques

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Canto do mar

Vejo do mar a forma intensa,
Como quem vê e não pensa.
Vejo-lhe a forma, a face, a fronte
Vejo-o beijar o céu no horizonte.

Vejo-o de orgulho ostensivo
Afrontar a terra, insurgido.
Vejo-o de humildade indulgente
Lavar os pés a tanta gente.

Vejo-lhe do sol aliado
E lhe espelha a luz sobremaneira.
Vejo-lhe a lua companheira.

Na procela vira-o irado.
Agora, em vasta bonança,
Vejo-lhe a calma da esperança.

Sérgio O. Marques

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Canto ao rio

Tu, teu leito moldas serpeando
Onde te deitas a descançar.
Em ti acolhes deplorado pranto
E o vais lançar ao mar.

Segues adiante resoluto
Sem hesitar ou voltar atrás.
Querer eu ser como tu fugaz
E peremptório em meu conduto.

O teu discurso é discorrer
Por entre montes, vales e morros.
Trazes murmúrios de entristecer
De outras preces, de outros choros.

Em ti escrevo confiante
Meus pensamentos, fiel amigo.
Pode ser decerto que a jusante
Alguém os leia se os levares contigo.

De cetim te vestes são e vaidoso
Cor de prata estampa em seda fina
Passas por mim firme e viçoso
Alardeando água cristalina.

A ti pergunto, que bem trajas
De onde vens, para onde vais?
De ti não sabes, livre viajas.
Existes porque és e nada mais.

Sérgio O. Marques