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segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Um doce fluir

Enebria a mente, a quinta essência
A fluir-te os chacras, carícia labial
De arrepiar a espinha. Bebes a demência
Dos meus lábios num beijo vaginal.

Cheiro-te o ânus e o corpo perfeito,
E mordo-te os seios firmes de paixão.
Esta lascívia que nos inflama o leito
Faz-me possuir-te como um furacão.

Assim vais gemendo gemidos de orgia
Até ao orgasmo, ejaculação, prazeria
Enquanto mordes a boca e se pára o tempo.

Aí sabes que num breve momento
És minha raínha num reino encantado.
No fim dormes com um sorriso alado.

Sérgio O. Marques

terça-feira, 15 de julho de 2008

Um defeito na natureza

A fonte de todo o mal
Nada mais é senão
O pensamento racional
E toda a sua criação,
Obras, engenho e arte
A pulular por toda a parte.
Tem como, natureza, mazela,
O raciocínio, a razão,
O maior defeito nela,
Sua séria perdição.
Eivada, desespera
Qual criança carente.
Será o fim da biosfera,
O pensamento consciente
Com tristeza e alegria,
Amor e ódio pungente
E ganância em demasia.
Em razão pode ser tida
Como bem ser verdade,
O exterminar toda a vida,
Aniquila a humanidade.

Sérgio O. Marques

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Tenho medo

Tenho medo
Um medo atroz
Desta sede de vingança
E este algo que me aflige,
Me dilacera por dentro.
Estou no escuro
Envolto pelas trevas mais profundas
Em pranto e dor
E gelo infernal
Em cada lágrima vertida.
Grito rouco e a voz
Não me sai, definha
Nem sequer perturba o silêncio
Escondido no meu peito
Vazio de luz.
Estou sozinho e com medo
Como uma criança perdida da mãe
No meio de um mar de gente.
Tenho medo de rir e de chorar
De morrer e de viver.
Não sei se é no ódio ou no amor
Que deva fundamentar os meus valores,
As máximas que me fazem ser.
Não sei se é a alegria ou a tristeza
Que tenho por fiel amiga
E levo sempre comigo.
Não sei se quero continuar
Pois nem sei para onde ir.
Ninguém me indica o caminho,
Estou só e perdido.
Não quero odiar
Mas tampouco não posso amar.
É como sentir sem saber o quê,
Um algo sem forma e medonho,
Tormento nos sonhos
Das noites passadas em claro
Em que só a manhã traz alívio
Efémero enquanto o dia dura
E a noite não volta de novo
Com o seu silêncio perturbado
Por ingénuos zuídos quase inaudíveis.
Se durmo, pudera estar acordado.
Se desperto, quisesse eu estar a dormir
De não saber o que sentir.
Ninguém me acena com vontade
Ninguém que me abrace sincero,
Que me afague enquanto choro.
Só, caminho e caminho incerto.

Sérgio O. Marques

domingo, 22 de junho de 2008

Desiste

Caminha só nas escaldantes
Areias do deserto.
Os lábios crestados pelo sol
Imploram um pouco de água,
Nem que seja uma pequena gota.
Sente que do destino está perto,
Que se vai cobrir com um lençol
Doirado num berço de seda fina,
Palácio maravilhoso.
São só miragens a trazer ilusão,
Apenas o aguardam as noites frias
Da escura solidão.
Avança denodado, sequioso
Companheiro da esperança
Enquanto esta não o abandona.
Avista oásis mirabolantes
Povoados de gentes espampanantes
Alimento da perseverança,
O veneno do coração
Do ser incúria da decepção.
Com lânguido cambaleio
Prostra-se, mãos na face,
Joelhos no chão
E tantas lágrimas por chorar.
Nada mais o alenta,
Nada mais o acalenta.
Olha para trás e o que vê?
Tão somente as suas pegadas
Apagadas pelo vento
Da vida que já nada tem para lhe dar,
Nada para o fazer lutar.
Desiste no meio de nada
E no nada cai.

Sérgio O. Marques

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Aldeia adormecida

Naquela aldeia desconhecida
Ao ocaso, bela, adormecida
Badalam as trindades roucas
Canto triste do velho sino.
Das janelas apagam-se luzes poucas
Que não se chegaram a acender.
Ao relento passeia um menino...
Mas que menino pequenino!
Que andará por ali a fazer?
Não chora, nem ri
Apenas passa por ali
E por ali não há mais nada.
Pelo crespúsculo iluminada,
Toca a torre tristes trindades.
Lá bem no alto, dança o carvalho,
Ao canto dos anos e das idades
Tão sereno como a brisa
Das quentes manhãs de orvalho.
Além pára o menino,
O menino pequenino
A beber água da fonte
Cristalina como o orvalho,
Lindas pérolas de seda lisa
Vestem as folhas do carvalho
Imponente ao fim do monte.
Ao dilúculo ganha vida,
A aldeia adormecida
Mas não tanta vida assim.
As ruas cheiram a jasmim,
Rosmaninho e alecrim,
Ouve-se ténue, fraca voz
De anciães, olvidos avós
Sem se escutar o que se diz.
É uma aldeia feliz.

Sérgio O. Marques

terça-feira, 27 de maio de 2008

Viver pela verdade

O homem que vive pela verdade,
Conhece mais alto
Sente na alma a plenitude
Do céu, a humildade.
Iluminado,
Vislumbra o caminho da vida
Da escuridão à sã virtude
Há muito tempo esquecida.
É maior em seu ser,
Estar uno com o mundo,
Amar sem escolher,
Num se entregar profundo
Ao próximo, servir em submissão
E mesmo assim sorrir
A pureza de coração.
Um homem assim
Grande num amanhã porvir,
Não morrerá para o seu fim.
Viverá eternamente
Pois estará em paz plenamente.

Sérgio O. Marques

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Filhos do tempo

Vós, filhos do tempo,
Mansageiros da eternidade
Conhecedores da verdade
Ouvi o meu lamento,
Levai-o para lá da velha torre,
Para lá do monte,
Para onde não mais se chore,
Muito além do horizonte
Muito mais além
Onde não mais haverá ninguém.
Limpai-me, deixai o meu peito vazio
Com o vento do vosso sopro.
Sei que sequer não sou digno
De me deplorar a vós.
Sou ser insignificante
Mas sofro,
Vivo num sofrimento atroz,
Nesta imensa aflição.
Tende de mim compaixão.

Sérgio O. Marques

domingo, 4 de maio de 2008

Mulheres imorais

Libidinosas
Mulheres imorais
Vil beleza
Bebem da carne a fraqueza
Pecados mortais

Voluptuosas
Mulheres lascivas
Soberanas da libido
Amoldam divas
Doce perigo

Deliciosas
Mulheres bem feitas
Sabor sensual
São curvas perfeitas
Pecado original

Vaidosas
Mulheres ousadas
Vestem fino ouro
Ninfas namoradas
Um tesouro

Preciosas
Mulheres ladinas
Andar coleante
Torna-se delirante
Extasiantes meninas

Venenosas
Mulheres sedutoras
Musas tentadoras
Ferem o coração
Com o beijo da traição

Sérgio O. Marques

quarta-feira, 16 de abril de 2008

O beijo duma flor

Cheiro-te, flor.
As tuas pétalas ardentes
São rosas que brotam do meu amor
O perfume dos teus lábios quentes.
O teu sorriso aquece
A certeza do meu desejo
De cerúleos miosotes,
Dum doce gosto amargo que não se esquece
Perdido no beijo, o ensejo.
A tua voz em verso
Desenvolta em delicadas gloses
Ao vento, um segredo disperso
Canta em serenas melodias
E só eu as sei ouvir.
Lindos lírios purpúreos
Como lágrimas cristalinas, luzidias,
Singelas gotas de chuva a cair
Suave sobre campos popúleos
Cobrem o chão de cravos e papoulas
Coloridas no teu corpo perfeito.
És ninfa sobre o meu leito
Valerosa, entre guerreiras afoutas
Vindouras duma paz erguida,
Mensageiras do amanhecer.
Dás-me força, dás-me vida
Rejubilas o meu ser.

Sérgio O. Marques

domingo, 6 de abril de 2008

Ó Humanidade

Ó Humanidade,
De andar erecto insolente,
Das espécies déspota prepotente
És a vanglória da vaidade.
Ó Humanidade desumana,
De onde o saber emana,
Esquecido o coração
Conheces os segredos da morte
E causas destruição.
Será triste a tua sorte.
Ó Humanidade insensata,
Revê-te na tua história:
Na guerra não há glória,
No ódio não há perdão.
Não vês que isso te mata?
Ó Humanidade, a arrogância,
Os ditames da ganância
São a tua perdição.
De nada vale supérflua riqueza.
De nada serve o excesso,
A semente da tristeza.
O ser feliz não tem preço.
Ó Humanidade arrogante,
A mestria na tortura
Trilha os trilhos da amargura
Sob solo beligerante.
É o que te faz aviltante.
Ó constrangida Humanidade,
Em ser livre nada és.
És de ti mesma uma escrava
Submissa de lés-a-lés.
Isso assim não leva a nada,
O não creres na liberdade.
Ó ímpia Humanidade
Apregoas a justiça, defendes a alegria
Pois te veste a hipocrisia.
Preferes primar pela discórdia
Esquecendo a misericórdia
Nas sendas do dia-a-dia.
Ó Humanidade
Quão pesado é o fardo
Que te pesa em cada mão:
Discernir o bem do mal
Como forças da natureza
Num equilíbrio natural.
Anseias a Salvação.
Ó Humanidade, ainda há tempo!

Sérgio O. Marques

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Quando por mim ela passa

Quando por mim ela passa,
Nem dá conta. Passa ela
Dando ar de sua graça.
Como é linda, como é bela.
Flutua como o vento,
Voa alto com o tempo,
Por mim passa e não espera.
Poder abraçá-la... quem me dera!
Poder tê-la... uma quimera.
Passa por mim fugidia,
Bravia de atarantar.
Ela parece uma estrela
A espreitar no horizonte
Sem receio de luzir.
Escorre como a água da fonte
E por mim passa a rutilar.
Sei decerto que um dia
Lá terei de acenar
Para poder ir com ela.
Passa por mim, como é bela.
Tem a forma de uma estrela
Para eu poder seguir.
Vou segui-la, minha estrela.
Como é linda, como é bela,
Como pode ser fugaz.
Não a vou deixar partir
Sem poder dormir em paz.

Sérgio o. Marques

quarta-feira, 12 de março de 2008

A primeira salvação

Sujeita dos olhos tristes, porque sorris
Quando a música deixou de ser a harmonia
Que encanta o coração e o enche de alegria,
Quando a vida já nada te diz?
Olhas nostálgica o firmamento
Onde as estrelas cessaram o brilho.
Lânguida trazes no pensamento
Saudosas memórias de alguém
Que, com carinho, te chamasse mãe
E, com ternura, lhe chamasses filho
No tempo em que ainda eras feliz!
Eu choraria, mas tu sorris.
Que te faz viver, que te faz andar?
Será o amor que tens p'ra dar?
É a força da preserverança,
São a fé e a esperança
Que te fazem alentar.
Sorris bem-aventurada
Pois no pranto foste consolada
E Ele veio p'ra te salvar.

Sérgio O. Marques

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Lá ao longe

Lá longe naquela ponte
Vejo-me no passado da meninice,
Nos límpidos murmúrios da sandice.

Mais além naquela casa arruinada,
Esconde a sarça rupestre, de ser indolente
Um sorriso agreste numa boca incocente.

Ainda mais além naquela árvore
Ouço a cor do rouxinol e duma flor a fragrância
A pintar de arrebol a face da minha infância.

Muito mais além disto tudo
Para lá do horizonte, para lá do tempo
Sinto a deidade da fonte, sinto a luz do nascimento.

Sou ser pensante, aspirante a ser feliz.
Vós, entes da natureza, nesta margem meditai
Pois o rio que aqui passa é o rio que para lá vai.

Quero virar-me para trás
Para poder andar para a frente
Cantar de contente a sorte duma coisa que é sabida,
Não a certeza da morte, mas a beleza da vida.

Sérgio O. Marques

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Ao meu amor

Se o teu coração não é meu,
De meu infortúnio, a má sorte.
Já sabes que o meu é teu
Desde então até à morte.

Querer eu de minha vontade
Em te esquecer, linda dama.
É de dura adversidade
Desprezar a quem se ama.

Pela ferida que não cura
De amor inconciliável,
Rogo-te num gesto amável
Que sejas feliz na ventura.

Sofro duma saudade imensa
Porque eu não te esqueci,
Sinto no peito dor intensa
Por ainda gostar de ti.

Sérgio O. Marques

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Poema amargo

Sucedem-se os dias sem cessar.
Indago, perplexo quando isto irá parar.
O relógio revolve e marca o tempo
Fartando-me do mundo e do nostálgico sentimento
De que chego ao fim sem começar.
Do passado cuido e o que vejo?
Coisas feitas ainda por fazer,
Calcorreados caminhos ainda por percorrer
E a dor ardente do desejo
Que mata a sede de viver.
Ribomba-me o estridente sonido
Da feroz ânsia que me consome
Como a excelsa gula de um menino
Que não come, passa fome.
Ah! Lembrar-me das noites num sofrimento sentido,
Da fria dureza da solidão
(Enquanto deambulo vagante
No meio da multidão),
Da raiva mordaz e dilacerante
Que, com milhentas agulhas afiadas
Me alanceia o coração.
Pudesse eu arrebatar este tormento
Em miríades de exalações exacerbadas
E inspirar contentamento
Quando dar sumiço à má sorte
É dar calma à vida com a morte.

Sérgio O. Marques