Mostrar mensagens com a etiqueta Mundano. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Mundano. Mostrar todas as mensagens

sábado, 4 de outubro de 2008

Motor do mundo moderno

Motores e redutores
São ferros enlaçados,
Entre odores entrelaçados
Com transformadores
E cheiro lúbrico quente
Propulsando guindastes,
Martelos-pilões sobre bigornas,
Prensas, tornos dando tornas
(Produtos inúteis e trastes)
Num movimento demente
De cabos em cadernais,
Rodas dentadas frenéticas
De cremalheiras e muito mais,
Até coisas pouco éticas.
Máquinas e vapores
Aceleram a marcha social
De sabores e dissabores,
Auto-estradas sem nexo
Para mover capital:
Merdas que, lá bem no fundo,
Só servem para fazer sexo
No outro lado do mundo.
Cremes e unguentos
Escorrem o corpo de mel
E químicos pestilentos
Para esconder o sol da pele,
E dar cor à palidez,
Cor bronze de metal.
São motores mais uma vez
De sexo e capital.
Acabamos a comer chapa,
Papel de notas em maço:
Alimento, falsa capa,
Motor do fracasso.
É mercado financeiro
Dinheiro a trazer dinheiro atrás,
Sem riqueza fazer dinheiro,
Faz dinheiro que nada faz
Motor do mundo disnexo
Que cura males numa farmácia
E comunica com audácia.
Move tudo e compra sexo.

Sérgio O. Marques

quarta-feira, 23 de julho de 2008

A doença de ser português

Apre rrre
Que infortúnio...
O tormento de ser estúpido
A doença de ser português
Bisbórrias na mesquinhez
Irra, rrra
Poder despir-me da inferioridade
Desta horrível mediocridade
Do vil cirro que me acirra
Qual pátria que m'embirra
Zzzz
Ai a zoeira
Me zune a fúria
Tal lamúria
Tão triste fado
Ffffuuummmm (na cabeça... a zirneira)
Só ser luso
Deixa-me irado
Povo obtuso
Chrrrr rach poagh
Escarro por mim todo
E a quem é lusitano
Gentinha do catano
Atolados no lodo
chiiii

Sérgio O. Marques

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Nascer do dia

Cheiro a maresia
D'oiro e fina prata.
Marulham ao nascer o dia
Belos cabelos e uma fita escarlata.
São não sei bem de quem.
Dá-me um cumprimento matinal,
Aquele efémero beijo jovial
Da manhã que vem
E nasce a pipilar com tamanha euforia.
A faina fervilha de novo
E o milho assoalhado no chão
Canta com ostentação
Orgulhos da lide de um povo.
A rua sorri com alegria
Aos carros, carroças e carregos,
Aos animais do campo,
Aos burros e aos borregos,
Aos bois que vão passando
E deixam para trás
Verdes fieiras de pasto.
Um pregão loquaz
Dum vozeirão já gasto
Apregoa a cantar:
Quem quer carapau do nosso mar,
Sardinha vivinha a saltar.
Ó freguesa venha ver
O que tenho p'ra vender.
Di-lo muito a preceito
E nós seguimos a correr
A arremedar-lhe ingénuo jeito.

Sérgio O. Marques

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Espera o destino

Quando já nada te move
E a vida não te sorri,
Crê que o destino pode
Ter primo desígnio para ti.
Vê-lhe as mensagens, cada sinal,
Um cão que aos teus pés se aninha
E te torna assim especial,
Seres alguém que acarinha;
Aquela velhinha esquecida
Que de ti se lembra com saudade,
E foi sorriso na tua vida,
Foi-te alegria em terna idade;
A criança que te observa atentamente
E nem sabes o que quer,
Mas se ri candidamente
Num contágio de entorpecer;
O fim que te foi poupado
E te salvou, mão protectora
Como égide que te serviu de amparo
Pois não seria essa a tua hora;
Quiçá vivas para ajudar,
Trazer abrigo a um indigente,
Quiçá estejas para acompanhar
Aquela velha que te fez contente.
Quiçá seja a tua sina
Um gesto simples de embalar
Em berço de ébano uma menina
Que venha o mundo encantar.
Quem sabe, serás grande
Ou apenas feliz, estares em paz.
Tem esperança, sê preserverante,
Aceita o que o porvir te traz.

Sérgio O. Marques

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Piratas

Grito desesperado
A pedir a morte
Ecoa os sete mares.
Ronca o corsário irado
Injúrias à sorte
Do irmão decapitado.
-Vingança, vingança,
Clamam sombrios olhares.
Que se abata a matança
Daqueles cuja mão
Teceu as malhas da lei.
Morte aos nobres, morte ao rei.
Rasgava-se em pálida tez
A fúria que a tornava alva,
Aviltante coração
A adivinhar a nudez
Do vazio da alma
De quem quis ser pirata.
A lei só pune salteadores,
Só castiga quem mata.
Decapitam-se portadores,
Mensageiros da mortandade.
Corsários, apoiados por desonrosos
Governos, por impérios por formar,
São hoje heróis decorosos
Nas histórias de embalar.
Quem saberá ou poderá dizer
Que sejam, de agora, os monstros
A protagonizar os contos
Do futuro que há-de ser?

Sérgio O. Marques

terça-feira, 24 de junho de 2008

Astros

Olho o céu e miro, fascinado
Os astros no seu movimento perpétuo
Ao sabor das equações seculares.
Não sei se são mestres do fado,
Se nos sabem o destino incerto
Ou se fluem espectaculares
Numa harmonia celestial,
Sabedores de física-matemática.
Sinto, no sangue, tamanha extática,
A sua maravilha que me ferve,
A sua inteligência fenomenal
Que me inflama todo por dentro:
-Eles que nos mostraram o tempo,
Nos ensinaram as estações,
Cujo exímio bailado nos serve
De guia, nos vela à noitinha,
Nos orienta e nos adivinha.
No seu seio borbulha a alquimia,
Toda a química que nos faz matéria,
Que nos forma o corpo e carne,
Material invólucro de sensações.
E tudo isso é estonteante magia,
Pois, para nós foram criados,
Para, por nós, serem vislumbrados
Depois do pôr do sol de cada dia.

Sérgio O. Marques

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Aldeia adormecida

Naquela aldeia desconhecida
Ao ocaso, bela, adormecida
Badalam as trindades roucas
Canto triste do velho sino.
Das janelas apagam-se luzes poucas
Que não se chegaram a acender.
Ao relento passeia um menino...
Mas que menino pequenino!
Que andará por ali a fazer?
Não chora, nem ri
Apenas passa por ali
E por ali não há mais nada.
Pelo crespúsculo iluminada,
Toca a torre tristes trindades.
Lá bem no alto, dança o carvalho,
Ao canto dos anos e das idades
Tão sereno como a brisa
Das quentes manhãs de orvalho.
Além pára o menino,
O menino pequenino
A beber água da fonte
Cristalina como o orvalho,
Lindas pérolas de seda lisa
Vestem as folhas do carvalho
Imponente ao fim do monte.
Ao dilúculo ganha vida,
A aldeia adormecida
Mas não tanta vida assim.
As ruas cheiram a jasmim,
Rosmaninho e alecrim,
Ouve-se ténue, fraca voz
De anciães, olvidos avós
Sem se escutar o que se diz.
É uma aldeia feliz.

Sérgio O. Marques

terça-feira, 3 de junho de 2008

Ovar

Ovar,
Não oval
Tem mar
Cheira mal,
Não a mel
Nem a mil
Rosas do rosal:
Gente mole,
De tão vil
Sem brio,
Nada vale.
Terriola de Portugal
Sem outra com nome igual:
Ovar.
Na ria
O rio
Desemboca
A porcaria
Por um fio
Que se fia
Em água pura
Que não pára
A amargura.
É à medida do país,
Coisa infeliz.

Sérgio o. Marques

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Especulação

Especulação,
Ideias são
Senão tudo aquilo que não
Fazem parecer que são.
Teorias
E fantasias
Põem a fome na boca das crianças.
Afinal, de quem o mundo é posse,
Leis inúteis?
Quem o mundo tem,
Coisas fúteis?
(Catarro e tosse,
Da poluição
Enquanto aguardo resposta)
...Nada, porque não faz sentido
Tanta especulação.
Especular, a imaginação
De leis como estas
Evidenciam tino
Na estupidez das bestas.
Não se matem
Nem nos levem convosco,
Especuladores do fosso.
Vivam e deixem viver.
Sejam humanos como devíeis ser.

Sérgio O. Marques

sábado, 31 de maio de 2008

Ó Portugal

Ó Portugal, tu que tanto choras
O há muito que quem não te faz, o povo
Valeroso de outras épocas, outras horas.
Ó Portugal, parar, não te faz mais novo.

Vira-te para diante que o passado era,
Foi aquilo que não volta a ser, a quimera
Do que foi esquecido ou já nem é lembrado.
Canta um alegre destino, não um triste fado.

Abre os braços da beleza à primazia
Do teu valor infindo, aconchegando
No teu regaço, o cristal do bom auguro.

Ouve o silente brado desta gente, aqui
Clamando por um majestoso futuro,
Por alguém que te governe, a pensar em ti.

Sérgio O. Marques

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Mais um dia no reino

Ia,com passo apertado, o cão
Tirar a carta de pesados
Para a escola de condução.
Alguns minutos passados...
-Onde vais tão apressado?
Pergunta o porco sorridente.
-Vou á escola de condução
Que fica ali do outro lado.
-E tu? Pergunta o cão paciente,
Detendo-se firme no passeio.
-Vou comprar uma bandeira
Meia verde, meia vermelha,
Com uma bola amarela no meio.
-Para que queres o lençol?
Pergunta o cão curioso.
-Para hastear no quintal,
Pois sou muito orgulhoso
Por viver neste país.
Ao desfraldar a bandeira,
Mostro à nação o meu respeito,
De uma excelente maneira,
Segundo aquilo que se diz.
-Faz muito bem este sujeito.
Pensa o cão apreensivo
Enquanto cumprimenta a vaca
Que passa de avião.
Mal podia imaginar
Que o famigerado distintivo
Serviria para forrar a cloaca
Da latrina do suíno.
Despede-se e vai entrar
Na escola de condução.
-Tchau - acena o porco ao cão
Entrando na loja para comprar o pano
Que usaria para forrar o cano.
-Do resto, faço um tapete
Para a entrada da retrete.
Pensa o porco animado.
Mais adiante, na mesma rua
Oberva o gato malhado:
-Mas que larica tu tens.
Há já algum tempo te vejo comer
Tantos pacotes de manteiga.
-Eu só quero as embalagens...
Pia o pássaro com voz meiga
Que é levada pelo vento.
-Para fazer uma escadaria
Com uma bela esquadria
Para o meu apartamento.
Mais além, nesse momento,
Encontram-se o burro e o boi a conversar
Mano a mano na esquina
A mangar com a galinha
Que por ali vai a passar.
Entratanto, acaba de forrar
O porco a sua sentina,
Feita só para defecar.
Logo depois passa o cão
A conduzir um camião
Já com a carta na mão.
Vai com uma velocidade danada.
Leva-se uma vida agitada
No reino da bicharada.

Sérgio O. Marques

sábado, 24 de maio de 2008

Estrada da vida

Caminho por esta estrada
Solitária. Só as pedras
Me acompanham os pesados passos
Num desdouro de nada.
O que lá vem, ora são quimeras
Ora erros crassos,
Mais nada de interessante.
Quem por mim passa, ri.
Ri como um infante
Tão contente de si.
Não sabem que choro por dentro
Mas mesmo assim ririam,
É o comburente do seu alento.
As pedras caladas
Dizem-me o que quero ouvir,
O estar calado.
Se andassem, não me pisariam,
Desvairadas
Caminhariam ao meu lado.
Só eu as piso e não queria,
Não o posso evitar.
Mas não as calcaria,
Sentar-me-ia a conversar,
A meditar em nada,
A desdizer o que ficaria.
Tenho de continuar.
As árvores abraçam esta estrada
Com flores e frutos ao fim.
Além a felicidade
Espera por mim,
É verdade.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Oxidação entrópica

É culpa da entropia
A fatalidade de morrer.
Esta aumenta noite e dia
Porque assim tem de ser.
Ai o oxigénio que não perdoa
Sem sentimento
A idade avança oxidante
Oxidando à toa.
Qual descontentamento
Acaba por acontecer,
A respirar, envelhecer
Por oxidação celular,
E viver sempre a respirar.
Com os neurónios ferrugentos
E sem qualquer emenda
Ficam os velhos rabugentos,
A combalir até ao fim.
É a entropia que aumenta
Mas tem mesmo de ser assim.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Estas palavras

As palavras aqui apostas
Advêm de impulsos difusos
Um tanto ou quanto confusos
De cerebrais funções compostas
Sob a capa dum momento
A fluir no espaço-tempo.
E são a termodinâmica,
Química e física quântica
Que são fruto dos impulsos
Que intentam de explicar:
Uns calmos outros convulsos
Ou até de estropiar.
Outros impulsos estas lerão,
As palavras que aqui estão.
Acabam por começar
A mais impulsos gerar
No sabor doutro momento
Noutra cabeça, noutro tempo.
São os sinais da inteligência
A moer na consciência,
A falar ao coração
De quem as lê com atenção.

Sérgio O. Marques

Sistema I

A história caótica do espaço de fase
Aumenta a incerteza da trajectória
Do sistema, dinâmico, sem memória.
Assente a posição, fica o momento sem base.
Certo o momento, incerta a posição,
O estado actual perde a razão.
Quando se pretende saber o que passa
Toda a sua descrição colapsa,
A partir da qual, nova situação.
E lá vai o sistema esquecido
Do que havia acontecido.

Sérgio O. Marques

A censura silenciosa

A dor profusa no silêncio adormecido
Escorre ímpia numa dança mirabolante
Corpo acima. Segreda-nos ao ouvido
Vãs promessas dum amanhecer distante
Turvo num auguro oco de sentido.
Serpeia suave, delineia carícia ardil,
Engoda, engana, tolha, torna infantil
O discernimento, a certeza do se ser.
Sou surdo em a ouvir, sou cego em a ver,
Sou triste se com ela me sinto bem.
Quero de mim ser senhor, ser pensante,
Quero pensar mais alto, ir mais além,
Viver humilde num mundo honesto,
Num mundo nú, despido de proveito.
Viça-se silente a preceito,
Nas trevas cresce, aumenta lentamente.
Os seus tentáculos parasitários estende
Para nos abraçar, para nos tragar
E nos tirar a vida sem darmos conta.
É cruel tirana da escravatura,
Trazendo a democracia na boca,
Afã da penúria, amiga da amargura.
Numa mão, traz flores de maravilhar;
Na outra, um punhal para nos matar
E na terceira, um dedo que nos aponta,
Que nos acusa de sermos pobres
com pregões de valores nobres.
Aperta e cinge, vil afronta
Como é hipócrita, como é louca.
Ela, que nos conhece plenamente
Mas nada é sem nós, felizmente.
Ardilosa, faz-nos acreditar e descrer
À sua vontade, a seu bel-prazer
Moldando arbítrios sob falsa moral.
Dissimula de ciência a técnica
Sem qualquer máxima, sem qualquer ética,
Engodo apêlo, engano sentimental,
Hasteia bem alto a bandeira da salvação
Sempre que semeia o terror, a destruição.
Impinge a fome e depois sacia,
É déspota e mártir da sua própria ira
Num áspero afago com mão macia
Que nos prende a consciência,
Porque tudo o que é, é mentira.

Sérgio O. Marques

terça-feira, 29 de abril de 2008

O porco e o cordeiro

Caminhavam o porco e o cordeiro.
Lado a lado,
Seguiam com passo certeiro.
Dizia o cordeiro animado:
- Hoje o dia correu-me bem
E o trabalho foi de vento em popa!
O porco, com um sorriso forçado
A alindar tão fina roupa
Escondia do pobre o desdém.
É rico mas vive triste.
De mansinho com o punho em riste,
Com ligeiro movimento
Acerta-lhe na nuca um bofetão.
-De onde veio a agressão?
-Foi o vento, meu amigo, foi o vento!
O que depois se passou... não sei,
Não posso acrescentar mais nada.
Sei porém que o porco é rei
No reino da bicharada.

Sérgio O. Marques

terça-feira, 22 de abril de 2008

Segue adiante

Segue, meu amigo, adiante.
Para trás fica a dor lacinante
Do tempo perdido, da luta travada
Na arbórea ladeira escarpada.

Segue com coragem de vencedor,
Abre o teu caminho sobre cerrada
Aflição, vence à noite o temor,
Corre, que a hora já vai adiantada.

Segue, que, de tão longe, tão perto
Está o destino. Quase lhe toco.
Avança! Que lá chegar é certo.

O dia alumia enquanto desistir jamais
Será opção. Anda, pois correr é pouco.
Segue adiante que recuar não dá mais.

Sérgio O. Marques

sábado, 12 de abril de 2008

Arrimado o burro

Arrimado na taberna,
Seguro o burro por uma perna:
- Como sabendes,
Aquilo que fordes
Ou que fizerdes
Sem o serdes,
Mal parcendes.
O quê? - Grita o boi com um urro.
A cabra montanhesa
Coçava a cabeça
Enquanto continuava o pardal piando.
-O vinho aqui é bom! - resume o burro
E sai gaiando...
Mais a cabra.
E assim se vai andando
No reino da bicharada.

Sérgio O. Marques

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Um feitiço de encantar

Abracadabra
Pêlos de cabra
Rola e rebola
E zuuuum...
...um coelho da cartola.

Pim catrapim
Pozinhos de perlim pim pim
Um feitiço de encantar
E zuuuum...
...uma pomba a voar.

Zás catrapás
Zirlintum, zirlintás
Catrapim, catrapaz
E zuuuum...
...o mundo cheio de paz.

Ai se eu fosse feiticeiro...

Sérgio O. Marques