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sábado, 31 de maio de 2008

Ó Portugal

Ó Portugal, tu que tanto choras
O há muito que quem não te faz, o povo
Valeroso de outras épocas, outras horas.
Ó Portugal, parar, não te faz mais novo.

Vira-te para diante que o passado era,
Foi aquilo que não volta a ser, a quimera
Do que foi esquecido ou já nem é lembrado.
Canta um alegre destino, não um triste fado.

Abre os braços da beleza à primazia
Do teu valor infindo, aconchegando
No teu regaço, o cristal do bom auguro.

Ouve o silente brado desta gente, aqui
Clamando por um majestoso futuro,
Por alguém que te governe, a pensar em ti.

Sérgio O. Marques

domingo, 11 de maio de 2008

Saber ser

Saber voar
Com pés assentes em terra
Saber lutar
Sem ter de ser em guerra
Saber ouvir
Quem espera impaciente por falar
Saber abrir
A mente que se acaba de fechar
Saber ofertar
O que de mais valioso temos
Saber libertar
Tudo aquilo que para nós queremos
Saber ver
Aquilo que está para lá de cá
Saber receber
O que vem de lá para cá
Saber precipitar
Num abraço desconhecido
Saber amar
Com a coragem de um destemido
É saber ser maior
É estar mais alto
É do frio sentir calor
É chegar ao céu num salto

Sérgio O. Marques

quinta-feira, 20 de março de 2008

Paciência

A paciência é uma ciência.
Quem espera sempre alcança
A fortuna da vivência.
Quem desespera fica preso
Aos ditames da lembrança
Que apaga o fogo aceso.
Olhar de frente ao provir
E ter fé no que está p'ra vir
É da vida boa opção ter.
É ter coragem de seguir
Sem parar de bem viver.
Olhar p'ra trás é passado
Do que foi antes de agora.
Subverte o aprender
A rectificar o errado.
Quero ser livre sem demora.

Sérgio O. Marques

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Recanto ao rio

Já não és o rio que eras,
O garrido menino que corria.
Padeces inquieto na melancolia
Que te afligem duras quimeras.

Como um indigente na amargura
Que sofre num silêncio fechado
Sonhas em te libertar do pesado
Fardo do martírio da usura.

Foi essa ganância inclemente
Que se atreveu em te eivar.
Tu que lavas tanta gente,
Quem te vem a ti lavar?

Nesta arbórea margem definho
Com a angústia de um amigo.
E para não chorares sozinho
Choro sozinho contigo.

Mesmo sem beleza que se goste,
Que se cante em tom loquaz,
Para mim sempre serás
O rio que sempre foste.

Sérgio O. Marques

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Canto do mar

Vejo do mar a forma intensa,
Como quem vê e não pensa.
Vejo-lhe a forma, a face, a fronte
Vejo-o beijar o céu no horizonte.

Vejo-o de orgulho ostensivo
Afrontar a terra, insurgido.
Vejo-o de humildade indulgente
Lavar os pés a tanta gente.

Vejo-lhe do sol aliado
E lhe espelha a luz sobremaneira.
Vejo-lhe a lua companheira.

Na procela vira-o irado.
Agora, em vasta bonança,
Vejo-lhe a calma da esperança.

Sérgio O. Marques

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Canto ao rio

Tu, teu leito moldas serpeando
Onde te deitas a descançar.
Em ti acolhes deplorado pranto
E o vais lançar ao mar.

Segues adiante resoluto
Sem hesitar ou voltar atrás.
Querer eu ser como tu fugaz
E peremptório em meu conduto.

O teu discurso é discorrer
Por entre montes, vales e morros.
Trazes murmúrios de entristecer
De outras preces, de outros choros.

Em ti escrevo confiante
Meus pensamentos, fiel amigo.
Pode ser decerto que a jusante
Alguém os leia se os levares contigo.

De cetim te vestes são e vaidoso
Cor de prata estampa em seda fina
Passas por mim firme e viçoso
Alardeando água cristalina.

A ti pergunto, que bem trajas
De onde vens, para onde vais?
De ti não sabes, livre viajas.
Existes porque és e nada mais.

Sérgio O. Marques