sexta-feira, 11 de julho de 2008

Espera o destino

Quando já nada te move
E a vida não te sorri,
Crê que o destino pode
Ter primo desígnio para ti.
Vê-lhe as mensagens, cada sinal,
Um cão que aos teus pés se aninha
E te torna assim especial,
Seres alguém que acarinha;
Aquela velhinha esquecida
Que de ti se lembra com saudade,
E foi sorriso na tua vida,
Foi-te alegria em terna idade;
A criança que te observa atentamente
E nem sabes o que quer,
Mas se ri candidamente
Num contágio de entorpecer;
O fim que te foi poupado
E te salvou, mão protectora
Como égide que te serviu de amparo
Pois não seria essa a tua hora;
Quiçá vivas para ajudar,
Trazer abrigo a um indigente,
Quiçá estejas para acompanhar
Aquela velha que te fez contente.
Quiçá seja a tua sina
Um gesto simples de embalar
Em berço de ébano uma menina
Que venha o mundo encantar.
Quem sabe, serás grande
Ou apenas feliz, estares em paz.
Tem esperança, sê preserverante,
Aceita o que o porvir te traz.

Sérgio O. Marques

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Paixão negada

De sul o vento soprou forte
Em telhado levadio
Levou-te, amor, bem para norte,
Deixou-me o peito vazio.

Sei que não querias sentir
O que o teu coração sente
De nada te serve mentir
Pois o teu olhar não mente.

Sinto o teu pranto silente,
E em silêncio por mim clamas.
Por mim passas indiferente e
Nem assim, amor, me enganas.

Essa espada que me corta
Tem lâmina onde te feres.
A tua dor não me importa,
Não me tens porque não queres.

Sei que a tua boca quer,
De meus lábios, terno beijo
E em mil rosas se perder
Saciada de desejo.

Este é o fogo da paixão
Que nos faz ardor intenso.
É incúria da razão
Nos trazer sofrer imenso.

Cuido em te dizer assim
Desde o dia em que te vi:
Foste feita para mim,
Eu fui feito para ti.

Sérgio O. Marques

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Tenho medo

Tenho medo
Um medo atroz
Desta sede de vingança
E este algo que me aflige,
Me dilacera por dentro.
Estou no escuro
Envolto pelas trevas mais profundas
Em pranto e dor
E gelo infernal
Em cada lágrima vertida.
Grito rouco e a voz
Não me sai, definha
Nem sequer perturba o silêncio
Escondido no meu peito
Vazio de luz.
Estou sozinho e com medo
Como uma criança perdida da mãe
No meio de um mar de gente.
Tenho medo de rir e de chorar
De morrer e de viver.
Não sei se é no ódio ou no amor
Que deva fundamentar os meus valores,
As máximas que me fazem ser.
Não sei se é a alegria ou a tristeza
Que tenho por fiel amiga
E levo sempre comigo.
Não sei se quero continuar
Pois nem sei para onde ir.
Ninguém me indica o caminho,
Estou só e perdido.
Não quero odiar
Mas tampouco não posso amar.
É como sentir sem saber o quê,
Um algo sem forma e medonho,
Tormento nos sonhos
Das noites passadas em claro
Em que só a manhã traz alívio
Efémero enquanto o dia dura
E a noite não volta de novo
Com o seu silêncio perturbado
Por ingénuos zuídos quase inaudíveis.
Se durmo, pudera estar acordado.
Se desperto, quisesse eu estar a dormir
De não saber o que sentir.
Ninguém me acena com vontade
Ninguém que me abrace sincero,
Que me afague enquanto choro.
Só, caminho e caminho incerto.

Sérgio O. Marques

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Piratas

Grito desesperado
A pedir a morte
Ecoa os sete mares.
Ronca o corsário irado
Injúrias à sorte
Do irmão decapitado.
-Vingança, vingança,
Clamam sombrios olhares.
Que se abata a matança
Daqueles cuja mão
Teceu as malhas da lei.
Morte aos nobres, morte ao rei.
Rasgava-se em pálida tez
A fúria que a tornava alva,
Aviltante coração
A adivinhar a nudez
Do vazio da alma
De quem quis ser pirata.
A lei só pune salteadores,
Só castiga quem mata.
Decapitam-se portadores,
Mensageiros da mortandade.
Corsários, apoiados por desonrosos
Governos, por impérios por formar,
São hoje heróis decorosos
Nas histórias de embalar.
Quem saberá ou poderá dizer
Que sejam, de agora, os monstros
A protagonizar os contos
Do futuro que há-de ser?

Sérgio O. Marques

domingo, 29 de junho de 2008

Fado

Amália tinha uma porca
Chamada Camélia.
Sempre que a porca ia,
Toda a gente dizia:
Lá vai Camélia,
A porca da Amália.
Amália tinha uma cadela
Chamada Cândida.
Sempre que cadela ia,
Toda a gente dizia:
Lá vai Cândida,
A cadela da Amália.
Amálida tinha uma mula
Chamada Fermosa.
Sempre que a mula ia,
Toda a gente dizia:
Lá vai Fermosa,
A mula da Amália.
Amália tinha uma pata
Com uma trela.
Sempre que a pata ia,
Toda a gente dizia:
Lá vai a Amália
Com a trela na pata.
Quando a Amália cantou
A porca grunhiu,
A cadela ladrou,
A mula relinchou,
A pata cacarejou
Lá Lá Lá
Ronc ronc ronc
Ão ão ão
Ió ió ió
Qua qua qua
Mas que concerto afinado,
Quão lindo, era fado.
Uau! Fado era,
Era o fado da Severa.

Sérgio O. Marques

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Passa

Passa brando aceno jovial
Cortês. Singelo passa
E quando passa, abraça
Sorrisos de um amor cabal.

Quem quer que passe o ama
O asceta que se faz crer
Cândido que a alma inflama.
Mais puro não podia ser!

Olho, vejo-lhe o veneno.
Olha-me! Sabe que o temo.
Só eu lhe vejo o mal ruim
Mas sou louco por ser assim.

Sérgio O. Marques

terça-feira, 24 de junho de 2008

Astros

Olho o céu e miro, fascinado
Os astros no seu movimento perpétuo
Ao sabor das equações seculares.
Não sei se são mestres do fado,
Se nos sabem o destino incerto
Ou se fluem espectaculares
Numa harmonia celestial,
Sabedores de física-matemática.
Sinto, no sangue, tamanha extática,
A sua maravilha que me ferve,
A sua inteligência fenomenal
Que me inflama todo por dentro:
-Eles que nos mostraram o tempo,
Nos ensinaram as estações,
Cujo exímio bailado nos serve
De guia, nos vela à noitinha,
Nos orienta e nos adivinha.
No seu seio borbulha a alquimia,
Toda a química que nos faz matéria,
Que nos forma o corpo e carne,
Material invólucro de sensações.
E tudo isso é estonteante magia,
Pois, para nós foram criados,
Para, por nós, serem vislumbrados
Depois do pôr do sol de cada dia.

Sérgio O. Marques