domingo, 7 de novembro de 2010

Sábio ignoto

Numa orla, à beira mar,
Num país assaz distante,
Sentado, estava a pensar
Absorto, um sábio errante.
Via o mundo com minúcia,
Destrinçava a natureza
Lançava luz com argúcia
Sobre a sua escureza.
Escreveu doutas palavras
Em tão fina e branca areia.
Cada sulco eram lavras,
Monumentos da ideia.
Alou e segiu avante,
P'ra trás ficou o seu tento
Nas palavras, nesse instante,
Esquecidas pelo tempo.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Amor

O amor acorda esta calma que desperta
Tanta sede de vida em mim.
É o sublime sentimento que me liberta
Deixando tudo de ser assim,
Tudo o que outrora era.
Faz-me sentir limpo, dealbado, puro,
Faz-me sentir tão seguro
Num assombro de esplendor
De tão deslumbrante, o amor.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Quadras de amor II

Vi lauta canção d'orvalho
Na fragrância da manhã.
Eram maçãs do teu rosto,
O arrebol duma romã.

O sol que se punha ao largo,
Corando, de rubro, o dia
Tinha a cor do teu sorriso,
Azul da tua alegria.

Uma bela borboleta
De flor em flor a voar,
Nas asas levava os olhos
Teus tão belos ao luar.

Bebi os favos de mel
E a fonte pura de água.
Só saudades do teu beijo
São sede da minha mágoa.

Cadentes, caíam estrelas
A brilhar rastos doirados.
Era a luz dos teus cabelos
Ao vento, esvoaçados.

As árvores bailam ligeiras
Num bailado meigo e mélico
Ao som do teu terno canto,
Sabor teu, doce e angélico.

Passam cerúleas as núvens
Brancas no céu de algodão,
Como os traços do teu jeito,
São formosa perfeição.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Ó monstros que me detestais

Ó monstros que me detestais!
O vosso ódio, tudo o que tenho
Sem direito a mais
É amor do vosso tamanho.
Ó seres escuros,
Filhos da treva e da sombra,
Irmãos do medo,
Tão crueis e duros
Sois frio da manhã cedo
A seita que me amedronta
E única companhia.
Vós, criaturas insanas
Do vale do abismo,
E das horas profanas
Temeis a luz,
Melancolia que bebo e cismo
E me seduz.
Vós, doutos do mal, a demência
Se vos engrandece, em natureza,
Porque a frágil complacência
É do tamanho da vossa fraqueza.

sábado, 16 de outubro de 2010

O trovador finou

O cão ganiu,
O gato miou,
O boi mugiu,
O pato grasnou,
O porco grunhiu,
O burro zorrou
O cordeiro baliu
O lobo uivou.
Quando a noite caiu
O sino tocou
E o menino se entristeceu:
O trovador finou!
O trovador morreu!

Ganiu o cão,
Miou o gato,
Mugiu o boi,
Grasnou o pato,
Grunhiu o porco,
Zorrou o burro,
Baliu o cordeiro,
Uivou o lobo.
Quando caiu a noite,
Tocou o sino
E se entristeceu o menino:
Finou o trovador!
Morreu o trovador!

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Conspiração (O grito da loucura)

Nas mais cavas catacumbas dos confins da Terra,
Muito além do que vista alcança,
Congeminam, senhores, silente guerra,
Tenebrosos inimigos da esperança.
O povo calado, consente, embrutecido
Por hordas de macacos sem açame,
As injúrias de uma sorte imane,
Escravidão de um passado já esquecido.
Roubam a memória, pilham a história
Às gentes já quase sem identidade,
Apregoando as maravilhas da liberdade;
Seu intento: somente poder e glória.
Vestem a fria máscara das fracas leis
Com pele de cobra e coração exangue
Os salvadores, majestosos reis
De mãos sujas a escorrer sangue.
Misturam vis, os ingredientes da loucura,
Num caldeirão sem fundo fervem o mal.
Com um sorriso dissimulado, sem levantar fervura,
Ainda mais deixam cego quem, de si, vê mal.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Homem mau

Encosta a cabeça à janela
e pergunta:
- Mãe, que senhor ali vai?
- Um homem mau! - Responde ela.
O menino não imaginava o sacrifício
Que a mãe fazia para o ver feliz.
Fita o mendigo, entristecido
Pois encontrara-se nos seus olhos.