terça-feira, 3 de Novembro de 2009

Industrialização

Uivam frágoas em fúria
Gritam roucos de lamúria
Motores de ferro em força e fogo.

Máquinas em movimento
De rodas dentadas e cremalheiras
Içam guindastes com passo lento
Pesados contentores de outras beiras.
Chiam fortes cabos em cadernais,
Atroam frenéticas, correntes de transmissão
Em serras, tornos mecânicos, conformadoras,
Quinadeiras, moínhos e tanto mais,
Um mar de delírios em convolução
Num extasiado concerto de danças sedutoras.
São grandes transformadores de potência
Alimento de tamanha eloquência,
A música que baila os vários furores
Do andar estrénuo de pontes e elevadores
Maquinismos de ar comprimido lá fora,
Silos que enchem e vazam toda a hora.
O cheiro a aço brame dormente
O sabor lúbrico das luzes fabris
Incessante ciciar de tons febris,
Tons caiados dum pálido demente.
As altas chaminés tossem fuligem
Negra no cerúleo das núvens que vão,
O fumo da hulha em evolação
Voa tão distante que à paisagem
Pinta-a, intensamente, a carvão.
O rio azul corre tingido
Da cor de barro em carne viva,
Levando além sempre à deriva
Refugos do industrialismo.
Por entre soutos e pinheirais,
Planaltos, prados e pantanais
Erguem-se em catenárias extensas
Linhas eléctricas de alta tensão
Acendendo à noite lâmpadas imensas,
Energizando toda esta industrialização.
A produção de bens de consumo
São seu fim e razão de ser,
O lucro crescente é doce sumo
De capital que não cessa de crescer.
A indústria estende cada tentáculo
Desde o operário na mais baixa esteira
Até bem ao cimo do pináculo
Da desavergonhada elite financeira.
O fim da tarde ecoa no som da sirene
Fazendo-se vida em horas de ponta
Revezando-se operários vezes sem conta
Em usinas de labuta perene
Ditando usos e costumes de cada dia,
Os rituais oriundos da engenharia.
Eis que surge como uma religião
O consumismo, o comércio e a produção.

3 comentários:

Lord of Erewhon disse...

O futurismo andou por aqui... ;)

Um Olhar disse...

Quero expressar os meus sinceros parabéns por este teu excelente poema. De elevada significância e de grandioso teor poético.
Um belo testemunho à evolução do homem.

Bjo
Fatima

Vianna (Camisas e Manias) disse...

Lindo... Lindo. Sublime concepção ante à visão da indústria... O comentário acima resumiu tudo muito bem!!! Parabéns!!!