sábado, 11 de setembro de 2010

Abandonado


Sóis e luas vêm e vão
Arando a azáfama da noite e dia.
Cansado, ao abandono, em demasia
São aspirações de desejos que não são.
Cresta-lhe a tez morena de um escuro triste
As intempéries com que o tempo, inocente,
Lhe fustiga, de espada em riste,
As entranhas, ao relento, qual demente.
A idade, doença de mão febril,
Irmã dos anos, séculos, milénios, eras
Acarta o mundo sem intento ou ardil.
Só lhe escapam vãs quimeras.
Prostrado na lama (estendida aos pés)
Sobra como ruína de outrora
A branca neve da alvice e, talvez,
Memórias que a hora não levou embora.
Não é injusto o sopro do último alento
Ou se aí se esvai sublime a dignidade.
Somente, insípido, o frio manto do lamento
Lhe abraça, de solidão, sem piedade.
A morte aguarda à porta à espera,
Paciente, a derradeira partida.
Augura alívios, pois só, desespera
As agonias enterrando aquela vida,
Dormida no berço lá fora.

1 comentário:

***MissUniversoPróprio*** disse...

Cansaço, solidão, tristeza e lembranças que nos trazem saudades.

É preciso desvencilharmo-nos de todo o mal, para que a vida enfim volte a florescer.

Obrigada pela visita, volta sempre, tá? ;)

Ps. gostei daqui, tudo muito bonito.